Veterinários Sem Fronteiras Portugal: Promover a Saúde Global Através do Cuidado Animal
O UniPlanet falou com Carolina Pinto Brandão, membro da direção dos Veterinários Sem Fronteiras Portugal, para conhecer melhor o trabalho desta organização, que vai muito além da medicina veterinária tradicional. Integrando o princípio One Health, que reconhece a interligação entre a saúde animal, humana e ambiental, os VSF atuam em comunidades vulneráveis para melhorar o bem-estar dos animais, prevenir doenças e promover a sustentabilidade. Nesta entrevista, ficamos a saber mais sobre a missão, os desafios e o impacto do seu trabalho.
UniPlanet (UP): Os Veterinários Sem Fronteiras foram criados em 2006 e têm uma abordagem que vai muito além da medicina veterinária tradicional. O que motivou a criação da organização e como descreveriam a sua missão principal?
A Associação Veterinários sem Fronteiras Portugal surgiu em 2006, por iniciativa de três médicos veterinários estimulados pela experiência de um colega que tinha estado envolvido num projeto de ajuda ao desenvolvimento em Cuba, o João Oliveira. O desafio foi lançado junto da rede de contactos de cada um e rapidamente se formou um grupo inicial de cerca de 50 fundadores. Apenas alguns dos fundadores já tinham experiência de projetos profissionais em países em desenvolvimento, mas o entusiasmo e a vontade de criar um projeto sólido eram comum a todos. Neste momento a associação tem o estatuto de Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD), reconhecido pelo Instituto Camões e é parte da Plataforma Portuguesa das ONGDs. Somos um dos 12 membros da Veterinários Sem Fronteiras Internacional e temos como missão promover a saúde pública através da melhoria da saúde animal, em locais que carecem de cuidados veterinários.
UP: O princípio One Health, que integra a saúde animal, humana e ambiental, é central na vossa atuação. Como aplicam esta abordagem no terreno e por que é tão importante?
Todos os nossos projetos são delineados tendo o conceito de One Health como um valor central. Nas atividades que decorrem em países que carecem de cuidados veterinários, a ligação entre a saúde animal, humana e ambiental é extremamente óbvia. Tendo em conta que nestes locais a maior parte dos recursos são limitados, é urgente contribuir para o equilíbrio das relações entre pessoas e animais. Em particular, os VSF trabalham para a gestão das populações de animais errantes, prevenção de zoonoses (as doenças transmissíveis entre os animais e os humanos), a segurança dos alimentos e a saúde dos animais produção. A educação é também um foco muito grande do nosso trabalho, tanto nos destinos referidos anteriormente como em Portugal, porque sabemos que só mudando mentalidades poderemos mudar comportamentos e garantir que o impacto das nossas campanhas perdura no longo prazo.
UP: Em que regiões ou comunidades têm trabalhado com maior regularidade e quais são os principais desafios que encontram nestas intervenções?
Temos trabalhado em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. Os principais desafios estão relacionados com o choque de realidades e recursos. As tarefas que desempenhamos são muitas vezes extremamente técnicas e os nossos voluntários têm que ter uma excelente capacidade de adaptação e resiliência para produzirem resultados que estejam de acordo com os standards de bem-estar animal que a associação defende, em contextos em que os recursos são muito diferentes daquilo a que estamos habituados.
UP: Podem partilhar algum caso de sucesso em que o vosso trabalho tenha tido um impacto significativo na vida das pessoas e dos animais?
Com o nosso projeto Menos é Mais, com o qual recebemos o prémio “Proteção” concedido nos One Health Pet Awards, sentimos que conseguimos mesmo chegar às comunidades da ilha do Príncipe. Apesar de em termos de número e impacto de longo prazo este projeto ainda ter um longo caminho a percorrer, é notório o reconhecimento crescente dos habitantes da ilha. De ano para ano os voluntários são cada vez mais reconhecidos, as pessoas já sabem o que estamos lá a fazer e aderem cada vez mais às atividades.
UP: Como o apoio veterinário pode contribuir diretamente para a segurança alimentar e para o desenvolvimento sustentável destas comunidades?
Os médicos-veterinários fazem parte de um conjunto de profissionais que está habilitado a garantir a segurança dos produtos de origem animal. Desde o controlo das doenças e dos tratamentos dos animais em vida até à inspeção dos produtos nas superfícies comerciais. Os médicos veterinários podem ter um papel crucial tanto na segurança dos alimentos, garantindo a sua qualidade, como na segurança alimentar, ou seja, a garantia de que as populações têm acesso a nutrientes na quantidade adequada. Nesta última questão, a educação de populações vulneráveis para técnicas de pecuária sustentáveis e seguras, é fulcral para o seu desenvolvimento.
UP: As doenças zoonóticas têm sido uma preocupação crescente a nível global. Como os Veterinários Sem Fronteiras contribuem para a prevenção e o controlo deste tipo de doenças em comunidades vulneráveis?
Ao levarmos cuidados veterinários para estas comunidades, estamos a contribuir diretamente para a prevenção de zoonoses. Isto pode passar por vacinação ou desparasitação dos animais, pelo controlo da qualidade dos alimentos de origem animal, mas também muito pela educação, que permite modificar a forma como as pessoas se relacionam com os animais.
UP: De que forma o vosso trabalho ajuda a promover a sustentabilidade ambiental e a equilibrar as relações entre seres humanos, animais e ecossistemas?
Um dos valores basilares da associação é o conceito de One Health. Este conceito parte precisamente da premissa de que não existem várias saúdes isoladas mas sim uma só saúde. Ao actuar ao nível dos animais estamos inevitavelmente a promover a saúde das pessoas e do ambiente. Esta relação é ainda mais óbvia em regiões em que as pessoas vivem em ligação muito direta com os animais e com o ambiente.
UP: Em cenários de crises humanitárias, como guerras ou desastres naturais, qual é o papel dos Veterinários Sem Fronteiras?
Até hoje, infelizmente, não foi possível para a associação ter dimensão e adquirir o conhecimento técnico necessário para desenvolver uma estratégia de atuação em emergência humanitária. No entanto, teríamos a capacidade de mobilizar voluntários e oferecer consultoria técnica se solicitada por organizações que estejam a atuar, de forma organizada, em cenários desse tipo.
UP: Quais são os principais desafios de atuar em situações de emergência e como os superam?
As situações de emergência têm contornos particulares e uma grande complexidade, exigem articulação entre muitas entidades, dedicação a tempo inteiro e muitos recursos humanos. O carácter estritamente voluntário sob o qual a associação funciona neste momento não permite assumir um compromisso de atuação em emergência.
UP: A sociedade civil e as empresas têm um papel importante na amplificação do vosso impacto. Como podem contribuir para apoiar os projetos e a missão dos Veterinários Sem Fronteiras?
Podem apoiar os nossos projetos através de doação de fundos, parcerias de serviços e através da divulgação do nosso trabalho. Este último ponto é muitas vezes pouco valorizado, mas é na realidade o mais acessível a todos
UP: Qual é a importância do trabalho de voluntários na vossa organização e como é possível envolver-se ativamente nesta causa?
O trabalho voluntário é central no funcionamento da Veterinários Sem Fronteiras. Até hoje a associação funciona exclusivamente com voluntários. Desde voluntários no terreno, a voluntários a gerir redes sociais e a garantir todas as necessidades administrativas. Um dos grandes sonhos da direção é que a associação venha a ter a autonomia financeira necessária para contratar funcionários. Atualmente os voluntários conjugam esta missão com as suas vidas pessoais e profissionais o que torna, inevitavelmente, todos os processos mais morosos. Para além disso, muitas vezes não dispomos da capacidade técnica para resolver alguns assuntos. Deste modo, a associação beneficia de ter voluntários médicos veterinários para a execução dos projetos no terreno, mas também de voluntários ou parcerias de todas as outras áreas que são essenciais para o funcionamento e crescimento de uma associação.
UP: Que iniciativas de sensibilização e educação desenvolvem para promover a saúde global e a importância do princípio One Health?
Sempre que temos um projeto de atuação veterinária incluímos também atividades de educação. Geralmente envolvem atividades em escolas e em locais de reunião das comunidades. Também nos próprios locais de campanha tentamos ter alguém dedicado a transmitir informação às comunidades, explicar a importância do nosso trabalho e esclarecer todas as dúvidas. Atualmente temos um projeto em Portugal, para crianças e jovens, que pretende sensibilizar para o conceito de One Health e para a importância e abrangência das profissões veterinárias. Este projeto começou em 2024 com uma edição piloto e está a ser desenvolvido para ganhar mais dimensão em 2025.
UP: Consideram que há ainda muito a fazer para que a sociedade entenda a relação entre saúde animal, humana e ambiental?
A compreensão desta relação tem vindo a crescer. A pandemia de CoVID-19 ensinou muito sobre este tema ao público geral, mas ainda há caminho a percorrer. As relações entre as várias saúdes são infinitas e estão presentes de diferentes formas em diferentes regiões e modos de vida. Acreditamos, por exemplo, que há muito a ensinar e a aprender relativamente à forma como o conceito de One Health se aplica às relações entre as pessoas e os animais de companhia em contexto urbano, que tem vindo a mudar muito nos últimos anos. Outra área interessante e que está relacionada com o nosso trabalho é da segurança dos alimentos. A maioria das pessoas não faz ideia das medidas que são tomadas todos os dias para garantir que nem temos que pensar duas vezes ao comprar um produto de origem animal no supermercado.
UP: Quais são os objetivos futuros dos Veterinários Sem Fronteiras Portugal? Existem novos projetos ou regiões prioritárias para os próximos anos?
Queremos continuar a atuar em São Tomé e Príncipe no controlo dos cães errantes e criar mais projetos na área de treino de técnicos auxiliares de veterinárias nas áreas onde os médicos veterinários escasseiam.
UP: Que mensagem gostariam de transmitir à sociedade portuguesa sobre a importância do vosso trabalho e da promoção da saúde global?
Reforçar a mensagem de One Health. O impacto do trabalho dos VSF vai muito para além da saúde dos animais e este é um valor fundamental na conceção dos nossos projetos. Continuaremos a trazer mais educação e formação neste sentido para que cada vez mais intervenientes contribuam para a saúde global.