Com a chegada dos meses mais quentes, aumenta o risco de propagação da leishmaniose, uma doença que afeta não só os cães, mas também pode atingir os seres humanos. Para esclarecer melhor o que é esta doença, como se transmite, quais os seus impactos e, acima de tudo, como podemos preveni-la, o UniPlanet falou com o Dr. André Pereira, médico veterinário, que respondeu às principais dúvidas e alertou para a importância da sensibilização e da prevenção contínua.

 

UniPlanet (UP): Para começar, pode explicar aos nossos leitores o que é, afinal, a leishmaniose? O que causa esta doença e como se transmite?

A leishmaniose é uma doença causada por parasitas microscópicos do género Leishmania. Em Portugal, a espécie mais comum chama-se Leishmania infantum. Estes parasitas são zoonóticos, ou seja, podem afetar tanto animais como pessoas. A forma mais habitual de transmissão é através da picada de um inseto muito pequeno, o flebótomo. Apesar de muitas vezes passar despercebido, este inseto alimenta-se de sangue e tem menos de 3 milímetros de comprimento, sendo praticamente metade do tamanho de um mosquito.

 

UP: Porque é que a leishmaniose é considerada uma das doenças infeciosas mais graves que afetam os cães?

A leishmaniose canina é, sem dúvida, uma das doenças infeciosas mais importantes que afetam os cães. E isto deve-se, em grande parte, ao facto de ainda não existirem medicamentos capazes de eliminar totalmente o parasita do organismo, o que se denomina “cura parasitológica”.

Na prática, isto significa que, mesmo com tratamento, o parasita permanece no corpo do animal. O que conseguimos atualmente com o tratamento, que normalmente combina diferentes medicamentos, é reduzir a carga parasitária e controlar os sinais clínicos da doença. Em muitos casos, os sinais desaparecem e o cão recupera bem-estar e qualidade de vida. A este estado chamamos de “cura clínica”.

Importa, no entanto, reforçar que, apesar do estado de cura clínica, o animal continua infetado, e a doença pode voltar a manifestar-se. As recidivas tendem a ocorrer em fases de maior vulnerabilidade, como durante o envelhecimento, em situações de stresse ou quando há outras doenças que comprometem o normal funcionamento do sistema imunitário.

 

 

UP: Quais são os sintomas mais comuns e o que acontece se não for tratada?
No caso da leishmaniose canina, os sinais clínicos mais comuns incluem perda de peso progressiva, alterações cutâneas (como feridas que demoram a cicatrizar ou queda de pelo, especialmente em torno dos olhos e orelhas), aumento dos gânglios linfáticos, apatia, crescimento exagerado das unhas, sangramento nasal, e alterações oculares. Em fases mais avançadas, podem surgir alterações renais, que representam uma das complicações mais graves da doença.

É importante sublinhar que a leishmaniose é uma doença crónica, de evolução progressiva e potencialmente fatal se não for tratada. A ausência de tratamento ou o seu início demasiado tardio pode comprometer seriamente a saúde, e até a vida, do animal.

 

UP: Sabemos que também existe risco para os humanos. Pode falar-nos sobre o impacto da leishmaniose na saúde pública?

Sim, a leishmaniose não afeta apenas os animais, representa também um risco para a saúde pública, especialmente em regiões onde a doença é endémica, como é o caso de Portugal Continental.

A leishmaniose humana pode apresentar-se de três formas principais: cutânea (a forma mais benigna, com lesões ao nível na pele), mucocutânea (mais rara, afeta as mucosas da boca, nariz ou garganta) e visceral, que é a mais grave e, em Portugal, também a mais comum. Esta última afeta órgãos internos como o fígado, o baço e a medula óssea, podendo ser fatal se não for tratada.

Apesar dos riscos reais, a leishmaniose continua a ser uma doença negligenciada a nível global, o que significa que não recebe a atenção nem os recursos proporcionais ao impacto que tem. A falta de sensibilização, tanto entre a população como nas estruturas de saúde, limita a capacidade de resposta, seja no diagnóstico, no tratamento ou na prevenção.

 

UP: Com a chegada do verão, aumenta o risco de propagação da doença. Porquê? Que condições favorecem o mosquito transmissor?

Com a chegada do verão, o risco de transmissão do parasita aumenta significativamente. Esta situação está diretamente relacionada com a atividade do inseto vetor, o flebótomo.

Em Portugal, existem duas espécies de flebótomos com capacidade comprovada para transmitir Leishmania infantum: Phlebotomus perniciosus e Phlebotomus ariasi. Nas regiões temperadas, com é o caso de Portugal, estes insetos passam o inverno em diapausa larvar, uma espécie de hibernação, consequente da ausência de condições ambientais favoráveis, sobretudo devido às baixas temperaturas, que limitam o seu desenvolvimento.
Com o aumento da temperatura, típico da primavera e do verão, os flebótomos tornam-se ativos, alimentam-se de sangue e, se estiverem infetados, podem transmitir o parasita aos animais, como os cães, através da picada.

Em Portugal, o período típico de atividade dos flebótomos vai de abril a outubro. No entanto, os estudos indicam que as alterações climáticas estão a alterar este padrão. À medida que os invernos se tornam mais amenos e os verões mais longos, há cada vez mais meses com condições favoráveis à presença e atividade destes vetores. Isto significa uma janela de risco mais alargada, com impacto direto na propagação do parasita.

 

Cães praia

 

UP: Segundo o Estudo de Conhecimento sobre a Leishmaniose 2024, a perceção de risco em Portugal continua a ser baixa. A que atribui esta falta de conhecimento?

Apesar de ser uma doença endémica em Portugal, a perceção de risco continua a ser muito baixa. Muitas pessoas, incluindo tutores, ainda vêm a leishmaniose como “uma doença dos cães”, sem consciência do seu real impacto na saúde pública.

Além disso, apenas uma pequena percentagem da população sabe que a transmissão ocorre através da picada do flebótomo, um inseto frequentemente, e erradamente, denominado de mosquito.

A falta de conhecimento leva à desvalorização da prevenção e a diagnósticos frequentemente tardios. Sensibilizar é essencial, não só para proteger os nossos animais, mas também a saúde pública.

 

UP: O mesmo estudo mostra que quase metade dos donos nunca recebeu aconselhamento veterinário sobre prevenção. O que é que os profissionais de saúde animal podem (ou devem) fazer para mudar este cenário?

O estudo mostra que, entre os inquiridos que afirmaram já ter ouvido falar de leishmaniose, as principais fontes de informação foram, por um lado, a televisão, diria que motivado pelos anúncios frequentes a produtos de prevenção e, por outro, os médicos veterinários. Estes dados evidenciam o papel que a comunicação, tanto pelos meios de comunicação social como pelos médicos/enfermeiros veterinários, pode ter na sensibilização para esta doença.

Embora a perceção geral da leishmaniose ainda esteja aquém do desejável, atrevo-me a dizer que parte do conhecimento existente entre os tutores resulta do contacto com profissionais de saúde animal e da visibilidade associada aos produtos preventivos.

Ainda assim, o estudo deixa evidente que há necessidade e margem para se fazer mais. É essencial que todos, desde profissionais de saúde a tutores e meios de comunicação, contribuam para melhorar o conhecimento sobre esta doença, ajudando a proteger os nossos animais e também a saúde das pessoas.

 

UP: Quais são as formas mais eficazes de prevenir a leishmaniose nos cães? Pode falar-nos sobre o papel da vacinação e de outras medidas preventivas?

A prevenção da leishmaniose nos cães deve basear-se numa abordagem integrada. Não existe uma medida única que garanta proteção total. O mais eficaz é, sem dúvida, combinar várias estratégias complementares.

Em primeiro lugar, é fundamental o uso de repelentes com eficácia comprovada contra flebótomos. Neste sentido, é importante alertar os tutores para a necessidade de garantirem que o ectoparasiticida utilizado no seu cão tem, de facto, efeito repelente contra flebótomos, informação que pode ser confirmada na bula. Regra geral, estes produtos devem ser aplicados de forma regular e contínua, garantindo proteção durante todo o ano, ou, na impossibilidade disso, pelo menos entre abril e outubro, que é o período de maior atividade do vetor em Portugal. Funcionam como uma “barreira invisível”, que reduz significativamente a probabilidade de o inseto picar o animal.

A vacinação é outra ferramenta essencial, especialmente em cães que vivem em países endémicos, como é o caso de Portugal. Embora não impeça a infeção, a vacinação “treina” o sistema imunitário do cão a reconhecer e reagir de forma mais eficaz contra o parasita, reduzindo consideravelmente o risco de o cão vir a desenvolver doença clínica, sobretudo nas formas mais graves.

Outra opção são os imuno-moduladores, que, tal como a vacinação, tornam a resposta imunitária do cão contra o parasita mais eficaz.

Por fim, entre outras medidas, recomenda-se evitar, sempre que possível, a exposição dos cães ao exterior nas horas de maior atividade dos flebótomos, ou seja, entre o pôr e o nascer do sol, uma vez que estes insetos têm uma atividade predominantemente crepuscular e/ou noturna.

 

 

UP: A vacinação é uma ferramenta fundamental, mas a sua adesão ainda é limitada. Como se pode aumentar a aceitação por parte dos donos?

A vacinação é uma ferramenta fundamental na prevenção da leishmaniose canina, mas, apesar da sua importância, a adesão por parte dos tutores continua a ser subótima. Os estudos demonstram que a vacinação reduz significativamente a probabilidade de um cão desenvolver leishmaniose clínica, especialmente nos quadros mais graves e potencialmente fatais.

Na minha opinião, aumentar a aceitação passa essencialmente pela sensibilização e educação dos tutores. É importante esclarecer que a vacinação estimula o sistema imunitário do cão a desenvolver uma resposta mais eficaz contra o parasita, sendo uma medida complementar, que não substitui o uso de repelentes.

Importa também esclarecer eventuais dúvidas ou hesitações. A vacina disponível em Portugal é segura e apresenta uma eficácia superior a 70% na prevenção de leishmaniose clínica, podendo ser administrada a cães a partir dos 6 meses de idade.

Em zonas endémicas como Portugal, a vacinação é fortemente recomendada, sobretudo para cães de exterior ou com acesso regular ao exterior, uma vez que o risco de exposição ao vetor é naturalmente mais elevado.
Penso que, quando os tutores compreendem o propósito de cada medida preventiva, estão mais recetivos a adotá-las, e isso pode traduzir-se numa proteção mais eficaz dos seus animais.

 

UP: O que diria a quem acha que “isso não acontece no meu bairro” ou que nunca ouviu falar de casos por perto?

É natural pensar que, se nunca ouvimos falar de casos de leishmaniose, o risco não existe. No entanto, esta ideia pode criar uma falsa sensação de segurança.

Devemos ter presente que a doença é endémica em Portugal Continental e que os vetores, os flebótomos, estão presentes de norte a sul, mesmo em zonas urbanas.

Além disso, é importante lembrar que uma parte significativa dos cães infetados pode não apresentar sinais clínicos, pelo menos numa fase inicial. Ainda assim, continuam a ser portadores do parasita e podem representar uma fonte de infeção para os vetores.

A prevenção não deve depender da perceção de risco imediato, mas sim ser encarada de forma proativa, informada e contínua. Quando se trata de proteger a saúde dos nossos animais, e também a saúde pública, a leishmaniose é, sem dúvida, uma daquelas doenças em que prevenir é mesmo o melhor remédio.

 

UP: Por fim, que mensagem gostaria de deixar aos donos de cães e aos leitores do UniPlanet sobre esta doença e a importância da prevenção?

A leishmaniose é uma doença grave e potencialmente fatal, que pode afetar não só os cães, mas também gatos e humanos. O risco de infeção é real em Portugal. A única forma de reduzir esse risco é através da prevenção. Importa sublinhar que o custo emocional e financeiro do tratamento é incomparavelmente superior ao da prevenção.

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Última atualização: 31 Agosto 2025