A APRAE – Associação Portuguesa de Resgate de Animais Exóticos – tem vindo a alertar para uma realidade pouco visível, mas cada vez mais urgente: o abandono e os maus-tratos a animais exóticos em Portugal. Coelhos, porquinhos-da-índia, chinchilas ou tartarugas são muitas vezes comprados por impulso, oferecidos como prendas ou criados sem qualquer noção das suas necessidades — o que leva a um número crescente de casos de negligência e abandono.

O UniPlanet falou com a equipa da APRAE para perceber que desafios enfrentam, que mitos persistem em torno destes animais e como todos podemos contribuir para mudar esta realidade.

 

UniPlanet (UP): A APRAE nasceu da necessidade de dar resposta ao abandono e maus-tratos de animais exóticos. Que realidade encontraram quando começaram este trabalho?

Infelizmente há muito desconhecimento em relação a estes animais, que são vistos como “pet de principiante”, animais fáceis, para dar a crianças, o que faz com que os maus-tratos por negligência sejam extremamente comuns. Vimos também ao longo dos anos um aumento da denúncia de condições de maus-tratos que muitos consideravam normais, e, portanto, temos notado um aumento da informação pública.

 

UP: Que espécies resgatam com mais frequência e porquê? Existem animais que vos chegam com mais frequência por abandono ou por más condições de criação?

Resgatamos sobretudo coelhos e porquinhos-da-índia, mas também chinchilas, hamsters, ratazanas e mais raramente aves ou répteis. O coelho é o terceiro animal de estimação mais comum em Portugal, e para além dos de estimação também existem os de criação para consumo. Os porquinhos-da-índia têm uma capacidade de reprodução bastante elevada, e muitas vezes as pessoas adquirem um casal e em menos de 1 ano podem ter mais de 100 animais…

Em termos de abandono coelhos são mais comuns, quanto à criação ilegal, aparecem-nos outras espécies menos comuns como chinchilas.

 

UP: Muitas pessoas parecem adotar animais exóticos sem conhecer verdadeiramente as suas necessidades. Quais são os erros mais comuns cometidos por quem decide ter, por exemplo, uma tartaruga, uma chinchila ou um coelho?

Infelizmente há muita desinformação, quer a nível das lojas de animais quer em criadores ilegais que vendem animais nas redes sociais e sites como OLX. Estes animais todos necessitam de ser seguidos em veterinário especialista em animais exóticos, muitos precisam de desparasitação, alguns de vacina e de castração. As fêmeas coelhas não esterilizadas, por exemplo, têm uma probabilidade de 80% de desenvolver tumores ginecológicos, e muitas vezes entregam-nos animais por terem tumores sem que tenha sido nunca ponderada a esterilização. Em termos de alojamento, espaços evidentemente pequenos, um coelho deve viver solto em casa, como um gato ou ter um cercado, nunca uma gaiola, noutras espécies que podem viver em gaiola parte do dia, as que são vendidas são muitas vezes de dimensão inadequada. A alimentação de ração de mistura tipo muesli, e não homogénea, também é comum.

 

 

UP: O que leva alguém a abandonar um animal exótico? É uma questão de falta de informação, de logística, de desinteresse…?

Muitas vezes um misto. Falta de planeamento, de estudo e ponderação antes de uma compra precipitada, e só ter noção das necessidades depois de já ter o animal em casa, ou pensar nos custos de veterinário só depois de este adoecer.

 

UP: Há a ideia generalizada de que alguns destes animais “dão pouco trabalho”. Isso contribui para o seu abandono?

Sem dúvida. São animais muitas vezes baratos de comprar em sites online, entregues sem qualquer critério, oferecidos como prendas a crianças, que depois são descartados quando se perde o interesse inicial.

 

UP: Muitos destes animais são largados em lagos, rios, matos ou jardins. Que riscos acarreta este tipo de abandono – tanto para os próprios animais como para o ecossistema onde são deixados?

São animais inerentemente domésticos, apesar de exóticos, e não estão preparados para viver nem no nosso ecossistema nem em nenhum, por exemplo as chinchilas domésticas são muito diferentes das chinchilas selvagens, e é impossível que sobrevivam na natureza, mesmo que fossem abandonadas no seu ecossistema de origem. Há muitas ameaças à fauna e flora local por causa da introdução destas espécies. As tartarugas de espécies invasoras são um problema muito grande, e a falta de vacinação e abandono de coelhos com mixomatose, está a dizimar as espécies de coelhos silvestres.

 

UP: Que tipo de cuidados específicos (alojamento, alimentação, temperatura, veterinário) são frequentemente negligenciados pelas pessoas? Há espécies particularmente sensíveis a determinadas condições?

Depende muito em cada espécie. Tartarugas e hamsters são dos que sofrem mais com alojamentos pequenos; no caso da alimentação a ração de mistura tipo muesli em vez de ração homogénea é a mais vendida em loja para coelhos, porquinhos e chinchilas; temperatura as chinchilas são as que sofrem mais, todos os anos morrem dezenas no verão de choque térmico (não podem viver acima dos 25 graus).

 

UP: Como lidam com casos de criação ilegal? Há muita venda não regulamentada em plataformas como o OLX ou redes sociais? Sentem que falta fiscalização?

Sem dúvida falta fiscalização e faltam leis que definam melhor quais as condições adequadas mesmo para criadores legais e lojas de animais. Faltam também entidades que recebam estes animais, atualmente somos dos únicos a receber animais exóticos retirados pelas autoridades de situação de criação ilegal.

 

UP: O vosso trabalho é feito essencialmente por voluntários e famílias de acolhimento temporário. Como funciona essa rede e como é feita a triagem dos adotantes?

Em primeiro lugar gostaríamos de dar uma palavra de agradecimento a todos os nossos voluntários, que acolhem e cuidam como seus estes animais, muitas vezes doentes, traumatizados, e os reabilitam. Temos famílias de acolhimento temporário em Lisboa, Porto e Coimbra, fornecemos tudo o necessário em termos de alojamento e alimentação e cobrimos todos os custos, a família só tem que cuidar deles e fazer os transportes até ao veterinário quando necessário.

A triagem de adotantes é feita pelas redes sociais através de fotografias e vídeos, pedimos para ver as condições de alojamento e alimentação, saber a que veterinário de exóticos vão, onde ficam nas férias e também se têm outros animais. Os adotantes têm que ser maiores de idade e financeiramente independentes.

 

 

UP: A legislação atual não reconhece os exóticos como animais de companhia. Que mudanças legislativas consideram urgentes para proteger melhor estes animais?

Estamos a dar passos pequenos neste sentido, acho que é essencial melhorar o estatuto de animal de companhia, perceber que cada espécie é diferente e devem ser desenhadas guidelines com as necessidades essenciais para manter cada uma delas.

 

UP: Um dos vossos focos é a sensibilização. Que conselhos dariam a quem está a pensar adotar um animal exótico pela primeira vez?

Façam uma boa pesquisa antes de tomar a decisão, vejam se têm espaço e tempo para a espécie em questão. Averiguem se há um veterinário de exóticos onde vivem e peçam para saber preços de procedimentos e consultas. Vejam bem qual a longevidade da espécie, pois há animais exóticos que passam de geração em geração devido a sua extrema longevidade, como algumas aves ou tartarugas.

 

UP: Como pode o público ajudar a APRAE – seja com donativos, voluntariado ou como FAT?

Podem nos contactar pelas redes sociais ou por e-mail, aceitamos voluntários em Lisboa, Porto e Coimbra, mas as adoções são feitas em todo o país, pelo que precisamos muitas vezes de boleias. Quanto a donativos temos lojas associadas onde podem comprar mantimentos que eles depois nos enviam – é nos mais fácil gerir deste modo dado que temos várias FATs a residir centenas de quilómetros umas das outras, aceitamos também donativos monetários sobretudo para contas veterinárias, e temos também um programa de apadrinhamento em que por 5 euros mensais podem ajudar um animal em particular com quem se identifiquem mais.

 

UP: Há algum caso de resgate que vos tenha marcado particularmente e que gostassem de partilhar?

Gostaríamos de falar de dois em particular.

Há uns meses fomos chamados a um local onde existia uma criação caseira de porquinhos-da-índia descontrolada. Não eram criados para venda nem para consumo, como já vimos no passado, mas simplesmente compraram um casal e deixaram-nos à sua sorte. Estavam num barracão, dentro de arcas frigoríficas (desligadas), sobrepostos em camadas, com os seus dejetos, uns vivos, muitos mortos. Eram no total mais de 250 porquinhos vivos… foi dos trabalhos mais horríveis que já tivemos, e ainda temos muitos para adoção.

Gostaria também de deixar uma palavra aos nossos animais de santuário. Quando começámos a fazer isto, a ideia era conseguir adotantes para todos os animais. Mas cada vez mais recebemos animais com deficiência, ou em fim de vida, que acabam por ficar connosco, pois é muito difícil conseguirmos adotantes para este tipo de animais. Temos atualmente vários coelhos em santuário, uma amputada, vários com torcicolos, vários splayed leg (com luxação da anca); temos também uma chinchila com um problema no maxilar e uma porquinha muito idosa. A casa deles é, e será sempre, connosco (salvo alguns casos em que se uma família perfeita os quiser, poderemos analisar a situação) e tentamos que tenham a melhor vida possível.

 

UP: O que vos motiva a continuar, mesmo com os desafios e a falta de apoios oficiais?

Os nossos animais, sem dúvida. Cuidar deles, ensiná-los a confiar em humanos, escolher uma família perfeita para cada um, e depois vê-los a florescer e a ser um animal feliz e normal, é algo impagável. Saber que salvámos uma vida.

 

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Última atualização: 27 Julho 2025