A Ethica – Sustainable Fashion Hub é um projeto que nasceu com o propósito de tornar a indústria da moda mais transparente, ética e sustentável. Enquanto plataforma educativa e informativa, a Ethica procura desmistificar os processos de produção, venda e descarte de vestuário, ajudando consumidores e marcas a compreender melhor o impacto das suas escolhas e a comunicar de forma mais responsável.

O UniPlanet falou com Mariana Pereira Silva, fundadora da Ethica, jornalista nas revistas Vogue e GQ Portugal e autora do livro Desfilar pela História, que será lançado este mês. Nesta entrevista, Mariana fala sobre o percurso que a levou da moda à sustentabilidade, os desafios de comunicar práticas éticas num setor em transformação e o papel que Portugal pode ter na construção de uma moda mais justa e consciente.

UniPlanet (UP): Como nasceu a Ethica – Sustainable Fashion Hub e o que te motivou a criar este projeto?

A Ethica – Sustainable Fashion Hub começou por ser um projeto de Mestrado que acabou por ficar na gaveta alguns anos até ver a luz do dia. Na altura, era uma revista… E a verdade é que o propósito não mudou muito: embora tenha nascido apenas como uma plataforma online, é na mesma um recurso de educação e informação sobre os mais variados assuntos que se encontram na interseção entre moda e sustentabilidade.

Criei a Ethica pois sentia que havia imenso conhecimento sobre este tema nas universidades, que poderia ser útil aos consumidores e às marcas de moda. No entanto, havia uma barreira – nomeadamente no acesso e no tipo de conteúdo privilegiado pela academia – que fazia com que a maioria das pessoas não contactasse com estas informações. A Ethica veio mudar isso.

UP: O teu percurso começou no mundo da moda e evoluiu para a sustentabilidade. Que momento ou experiência foi decisivo para essa viragem?

Não acredito que tenha havido um único momento decisivo – foi uma jornada, longa e complexa, que ainda hoje caminho. Contudo, algo que me ajudou a aproximar da sustentabilidade foi ter vivido seis meses apenas com a roupa que cabia numa mala de viagem. Esse minimalismo “forçado” fez-me sentir completamente assoberbada pela quantidade de roupa que tinha em casa. Na verdade, poucos meses após o meu regresso, acabei por organizar um mercado em segunda mão para me desfazer de algumas dessas peças. Mas sabia que, acima de tudo, precisava de reduzir substancialmente o meu consumo de roupa nova – e assim fiz, até aos dias de hoje.

UP: O que significa para ti “moda sustentável” e até que ponto acreditas que a indústria pode transformar-se?

A minha definição predileta de sustentabilidade está ligada à ideia, originalmente estabelecida pelas Nações Unidas, de que é possível dar resposta às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das próximas gerações de darem resposta às suas próprias necessidades. Isto significa, claro, limitar o consumo de recursos, mas também pressupõe ideais sociais, económicos, políticos e culturais que muitas vezes são negligenciados. Tento incorporar tudo isso no meu conceito de moda sustentável: uma indústria capaz de existir dentro dos limites do nosso Planeta e de gerar impactos positivos para as comunidades em que se insere – que, na verdade, são todas, pois todos usamos roupa!

Sei que pode parecer uma utopia, mas eu acredito verdadeiramente que o setor está posicionado de forma única para caminhar neste sentido. E se não for voluntariamente, será por obrigação… Quando a última bola de algodão for colhida, não teremos outra escolha a não ser limitar a utilização deste recurso, por exemplo. Mas espero que não tenhamos de chegar aí. Espero que, antes disso, consigamos reunir a criatividade e mobilização necessárias à construção de sistemas onde a sustentabilidade possa ser uma realidade, e não um fruto da nossa imaginação. E não é a moda o veículo por excelência das nossas aspirações mais criativas?

UP: A Ethica afirma que a indústria da moda nunca será totalmente sustentável. Como comunicar esta realidade sem desmotivar consumidores e profissionais?

O nosso propósito passa por canalizar as ações de consumidores e profissionais da indústria para aquilo que terá maior impacto – sabendo que, muitas vezes, não usufruíremos do resultado desejado, dado que os agentes com mais poder na indústria não estão a caminhar no mesmo sentido que nós. É um ato de balançar expectativas, garantindo, ainda assim, que nunca paramos – pois, tal como dizia Jane Goodall, a esperança gera ação e a ação gera esperança.

Sabemos que os maiores problemas da indústria não serão resolvidos do dia para a noite só porque substituímos o nosso consumo de fast fashion por uma marca de produção local. E precisamos que os nossos leitores tenham noção disso também, dado que só assim conseguirão ir além da sua responsabilidade enquanto consumidores, encarando o seu papel ainda mais importante enquanto cidadãos.

UP: Uma das vossas missões é tornar claros os processos da cadeia de produção, muitas vezes invisíveis ao consumidor. Quais são os maiores mitos ou equívocos que ainda persistem?

A interpretação das etiquetas é um desafio com o qual ainda nos debatemos muito. Por exemplo, um produto com uma etiqueta “Made in Portugal” não foi, na grande maioria das vezes, apenas produzido em Portugal. A fibra pode ter vindo da Índia, sido processada na China e a peça cortada no Bangladesh. E em Portugal? Em Portugal apenas se coseram os botões, por exemplo. Isto é suficiente para que a etiqueta possa, legalmente, conter as palavras “Made in Portugal”. E isto é muito mais comum do que se pensa. Felizmente, o Passaporte Digital de Produto que a União Europeia quer introduzir ajudará a combater esta falta de transparência.

 

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UP: De que forma a Ethica apoia tanto consumidores como marcas no caminho para uma moda mais ética?

Nos dois casos, através de informação, embora que de forma adaptada aos dois públicos. Junto dos consumidores damos prioridade à transparência nos processos da indústria – por exemplo, explicar o que acontece numa cadeia de produção – e depois canalizamos esse conhecimento para ações concretas, a partir das quais possam ter o impacto que desejam, correspondendo sempre aos seus valores enquanto cidadãos. Com as marcas fazemos um trabalho de consultoria, no qual diagnosticamos os seus maiores problemas e oportunidades de mudança em direção à sustentabilidade. Para algumas marcas isso pode significar rever processos produtivos, para outras implementar uma nova estratégia de comunicação. É algo que decidimos caso a caso.

UP: Que ferramentas e informações consideras essenciais para que os consumidores façam escolhas mais responsáveis?

Seria essencial que os consumidores tivessem acesso aos volumes de produção das marcas. Contudo, esta é uma informação raramente veiculada. Na verdade, não interessa muito se estamos a utilizar a fibra mais “sustentável” do mercado quando depois produzimos toneladas e toneladas dessa fibra – quando falamos sobre sustentabilidade na moda, o tamanho importa muito. Para além disso, seria importante ter acesso a dados mais concretos sobre os locais de produção das peças. Não falo de países, falo mesmo de fábricas. Há fábricas com excelentes condições laborais na China, tal como existem fábricas com péssimas condições laborais em Portugal – um país não nos diz muito sobre respeito de direitos humanos nas cadeias de produção de moda.

UP: Na tua opinião, os portugueses estão cada vez mais atentos à sustentabilidade na moda ou ainda predomina a compra por impulso?

Em Portugal, tal como em muitos países da Europa, o consumo excessivo ainda é um grande problema, e cada vez maior devido à prevalência de plataformas de e-commerce que já consideramos como ultra fast fashion, devido aos milhares de produtos colocados à venda todos os dias. Ao mesmo tempo, é difícil ignorar como o elevado custo de vida em Portugal, combinado com salários baixos, impede muitos cidadãos de apoiarem marcas nacionais. É verdade que a atitude mais “sustentável” que podemos ter é não comprar nada – e isso não custa dinheiro nenhum – mas também reconheço que, quando se precisa de algo novo, a grande maioria dos portugueses não tem condições financeiras para suportar os preços praticados por negócios artesanais ou de slow fashion. Mas isso não é um problema destes negócios – os seus preços não são “elevados”, são justos. É um problema, sim, da desigualdade de rendimentos em Portugal.

UP: Como comunicar com os mais jovens, que são grandes consumidores de moda, mas também mais abertos a novas formas de consumo (como segunda mão, aluguer, etc.)?

Através de histórias! A moda tem um grande poder de comunicação, de atrair e formar comunidades, e esse poder tanto pode ser usado para alimentar o consumo excessivo, como também para mobilizar os jovens em direção a atividades de grande impacto – até político e económico, como temos visto recentemente com a luta que as camadas mais novas têm enfrentado para ver o seu direito a um futuro saudável reconhecido.

Este foi o motivo pelo qual embarquei num novo projeto: um livro infantojuvenil onde conto a História da moda, de modo a que se perceba que a sustentabilidade não é uma tendência, mas sim algo que praticamos há milénios. O livro “Desfilar pela História” foi escrito por mim e ilustrado pela Raquel Costa, e as imagens também têm um impacto gigantesco na transmissão da mensagem de que é possível vivermos um futuro cheio de criatividade e sustentabilidade no nosso guarda-roupa. Será lançado nos próximos dias e chegará às livrarias no dia 22 de outubro.

UP: Qual é o maior desafio que encontras quando falas de sustentabilidade com as marcas de moda?

O meu trabalho principal é investigação académica e, enquanto investigadora, tenho muita dificuldade em conseguir que as marcas (dos mais variados tamanhos) aceitem colaborar comigo. Por vezes, nem uma simples entrevista aceitam realizar – mesmo quando confirmo que irei anonimizar a informação. Há tanto receio em que as coisas erradas cheguem ao público que a transparência e o acesso aos dados reais da indústria são completamente colocados de parte. Nesse sentido, muita da informação que circula, mesmo nos artigos académicos, não passa de estimativas, que podem estar a esconder uma realidade ainda mais grave. É o caso das emissões de carbono, por exemplo: por não sabermos o volume de produção das marcas, também não sabemos as verdadeiras emissões da indústria – e não sabendo esse valor real, é difícil calcular quanto precisamos de cortar.

UP: Já começam a surgir exemplos em Portugal de marcas verdadeiramente transparentes e consistentes na comunicação das suas práticas?

Sim, e muitas delas já trabalham nesta indústria há anos. É o caso da ISTO., que foi pioneira no breakdown do preço das suas peças ou, mais recentemente, na organização de visitas abertas às suas fábricas. Ou a Play Up, que mostra aos consumidores como estender o tempo útil de vida das suas peças o mais possível. Mesmo a nível internacional, são casos muito singulares.

UP: O que as marcas mais têm a ganhar em apostar numa comunicação honesta e sustentada em factos?

Antes de terem algo a ganhar com isso, acho que devem vê-lo como um dever – um dever enquanto participantes numa sociedade que precisa urgentemente de muitas pequenas ações com impacto positivo. A comunicação não deve ser o princípio de uma estratégia de sustentabilidade; primeiro, precisa de haver alguma mudança a comunicar. Todavia, esta pode servir de motor aos passos que são necessários tomar. Quando comunicamos, queremos comunicar algo positivo, certo? Então que se use essa motivação para verdadeiramente transformar as ações da marca.

UP: Quais são os próximos passos da Ethica? Estás a planear novos projetos ou parcerias que possas revelar?

Para além do livro de que falei acima, o meu trabalho enquanto investigadora está a trazer oportunidades intrigantes, que prometo partilhar também na Ethica. Por exemplo, passarei o mês de novembro a visitar fábricas e iniciativas de promoção de direitos humanos ligados à indústria de vestuário no Camboja. Estou muito ansiosa para partilhar esta viagem de investigação com a minha comunidade.

UP: Como gostarias que a indústria da moda portuguesa evoluísse nos próximos 10 anos?

Gostaria que fizesse do “Made in Portugal” uma referência de sustentabilidade a nível internacional. Já temos várias e importantes inovações do ponto de vista ambiental: novos materiais, processos produtivos e infraestruturas de reciclagem. Agora falta apostar nos nossos trabalhadores, a começar por aumentos salariais. A maioria dos trabalhadores da indústria têxtil e de vestuário português recebe o salário mínimo, o que sabemos que está longe de ser um salário digno, que cubra as despesas essenciais. É preciso mudar isso para podermos adotar o rótulo de sustentabilidade.

Tenho também um objetivo pessoal: ver a implementação da primeira fábrica com quotas de produção baseadas nos limites planetários. Alguém que tenha a coragem de se chegar à frente e dizer “só tenho acesso a estes recursos para que o Planeta se consiga regenerar, por isso só vou usar estes recursos e nada mais”. Acho que ainda está longe de acontecer, mas tenho esperança.

UP: Que papel pode Portugal ter nesta transição para uma moda mais ética e transparente?

Temos tradição, conhecimento, talento, inovação e criatividade. O que nos falta? Talvez que as lideranças da indústria privilegiem a sustentabilidade ambiental e social em detrimento dos seus interesses económicos. Quando isso mudar, estaremos em posição de liderar esta transição.

UP: Que mensagem gostarias de deixar aos consumidores que ainda têm dúvidas sobre a importância de pensar na sustentabilidade quando compram roupa?

Antes de serem consumidores, são cidadãos. E é minha, tua, nossa, responsabilidade lutar por um futuro saudável e justo.

UP: E às marcas que ainda resistem a dar esse passo em direção à transparência?

Se hoje a transparência é voluntária, amanhã será uma obrigação. E a mensagem acima também se aplica às marcas: as marcas são feitas de pessoas que, por sua vez, são cidadãos. O que está em causa não é apenas um modelo de negócio, mas um princípio de cidadania.

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Última atualização: 22 Outubro 2025