Devolver a permeabilidade às cidades significa permitir que a água da chuva volte a infiltrar-se no solo, em vez de escorrer rapidamente à superfície.
O solo saudável funciona como uma esponja natural:
quando não está selado por betão ou asfalto, consegue absorver parte da precipitação e libertá-la de forma gradual ao longo do tempo. Este processo:
- Reduz o risco de cheias e inundações;
- Diminui a pressão sobre os sistemas de drenagem e esgotos;
- Reforça as reservas de água subterrânea;
- Ajuda árvores e plantas a resistirem a períodos de seca;
- Mantém o solo vivo, funcional e fértil.
O problema das cidades impermeáveis
Nas cidades, grande parte do solo está coberta por superfícies impermeáveis – estradas, parques de estacionamento, passeios, pátios e edifícios. Em muitos casos, até espaços onde a água poderia infiltrar-se foram totalmente selados.
Quando a chuva é intensa:
- a água não consegue entrar no solo;
- escorre rapidamente à superfície;
- acumula-se em pontos baixos;
- sobrecarrega os sistemas de escoamento;
- aumenta o risco de cheias urbanas.
Este efeito em cadeia torna as cidades mais vulneráveis, sobretudo em zonas construídas sobre antigos leitos de cheia ou linhas de água artificializadas.
Soluções baseadas na natureza: o solo como aliado
A boa notícia é que as soluções existem, e muitas já estão a ser aplicadas em Portugal e noutros países europeus.
De acordo com vários estudos e guias técnicos recentes sobre ordenamento do território e gestão do solo, devolver permeabilidade às cidades passa por mudar escolhas de planeamento e desenho urbano, nomeadamente:
1 – Aumentar os pavimentos permeáveis
Substituir as superfícies impermeáveis por:
- calçada permeável;
- grelhas de enrelvamento;
- asfaltos drenantes;
- materiais que permitem a infiltração da água.
Estes pavimentos podem ser usados em passeios, estacionamentos, pátios escolares e espaços públicos.
2 – Remover betão onde ele não é essencial
Muitos espaços urbanos têm betão em excesso, sem qualquer função estrutural real.
Retirar betão de:
- pátios de escolas;
- zonas comuns de bairros;
- logradouros e espaços pouco utilizados;
permite criar áreas verdes que absorvem água, refrescam o espaço e melhoram a qualidade de vida.
3 – Criar mais infraestruturas verdes e azul-verdes
As chamadas soluções baseadas na natureza incluem:
- jardins de chuva;
- bacias naturais de retenção;
- renaturalização de ribeiras e linhas de água;
- parques urbanos que funcionam como zonas de infiltração;
- telhados e paredes verdes.
Estas soluções ajudam a reter e atrasar o escoamento da água, reduzindo o risco de inundações a jusante.
4 – Transformar escolas e equipamentos públicos
Pátios escolares impermeabilizados podem tornar-se:
- espaços verdes multifuncionais;
- zonas de sombra;
- zonas de proteção contra calor extremo
- áreas educativas sobre água, solo e biodiversidade.
Projetos deste tipo já mostraram benefícios claros na redução do calor urbano e na gestão da água da chuva.
5 – Planear melhor, antes de construir mais
Várias cidades europeias estão a:
- rever planos diretores municipais;
- limitar a construção em leitos de cheia;
- definir percentagens mínimas de solo permeável por lote;
- priorizar a reabilitação urbana em vez da expansão para áreas naturais.
A mensagem é clara: não basta drenar mais rápido, é preciso infiltrar melhor.
Cidades mais seguras começam no solo
Investir apenas em grandes obras de drenagem não chega.
Sem solos permeáveis, espaços verdes e infraestruturas naturais, continuaremos a correr atrás do prejuízo.
Devolver a permeabilidade às cidades:
- reduz riscos;
- protege pessoas e bens;
- melhora o ambiente urbano;
- torna os territórios mais resilientes.
Reforçar a permeabilidade das cidades é essencial para territórios mais seguros e resilientes. A água da chuva é um recurso, e saber acolhê-la é uma escolha consciente, com impacto real nas comunidades e no território.