As tempestades extremas, como a recente Kristin, e os grandes incêndios florestais têm vindo a expor uma fragilidade preocupante: é precisamente nos momentos de maior emergência que a eletricidade, a internet e as comunicações móveis falham.
Milhares de pessoas ficaram dias sem luz, água, rede móvel ou acesso à internet. Escolas, lares, pequenas empresas e até serviços essenciais foram afetados. E a questão impõe-se: como garantir comunicações e energia quando elas são mais necessárias?
A resposta não pode ser apenas reativa, tem de ser estrutural, preventiva e resiliente.
1 – Enterrar linhas elétricas: caro, mas essencial
Uma das soluções discutidas após a tempestade Kristin foi defendida pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho: o enterramento das linhas elétricas.
Atualmente, apenas cerca de 20% da rede elétrica portuguesa está enterrada, um valor muito inferior ao de países como Espanha ou Itália (cerca de 45%). Linhas aéreas são extremamente vulneráveis a vento forte, queda de árvores, incêndios e cheias.
Vantagens do enterramento:
- Menor risco de cortes prolongados
- Menor exposição a incêndios florestais
- Menos avarias em episódios de vento extremo
- Maior estabilidade da rede a longo prazo
Desvantagem principal: o custo inicial elevado.
No entanto, quando se contabilizam os prejuízos económicos, sociais e humanos causados por apagões prolongados, o investimento torna-se cada vez mais justificável, sobretudo se houver apoio europeu, como previsto no futuro grid package da UE.
2 – Micro-redes e produção descentralizada de energia
Outra solução fundamental passa por descentralizar a produção de energia.
Em vez de depender apenas de grandes infraestruturas, comunidades, edifícios públicos e serviços essenciais podem recorrer a:
- painéis solares locais
- baterias de armazenamento
- micro-redes capazes de funcionar de forma autónoma em emergência
Estas soluções já existem e são tecnicamente viáveis para:
- escolas
- lares
- quartéis de bombeiros
- centros de saúde
- estações de tratamento de água
Durante apagões, estas infraestruturas poderiam manter-se operacionais, reduzindo o impacto nas populações.
3 – Quando a rede móvel cai: comunicações por satélite
Um dos aspetos mais críticos da tempestade Kristin foi a falha generalizada das comunicações móveis. Sem rede, as pessoas não conseguem:
- pedir ajuda
- aceder a informação oficial
- comunicar com familiares
- trabalhar ou estudar
Satélites como alternativa
Embora ainda não exista uma oferta comercial alargada em Portugal, estão em desenvolvimento várias soluções:
Direct-to-Device (D2D)
Permite que telemóveis comuns se liguem diretamente a satélites, sem necessidade de equipamentos especiais.
Já foi testada em Portugal (ex.: Açores), mas ainda não está disponível ao público.
No futuro, esta tecnologia poderá permitir:
- envio de SMS
- chamadas de emergência
- comunicação básica mesmo sem rede móvel terrestre
4 – Starlink: internet por satélite
Durante a tempestade Kristin, autarquias, empresas privadas e as Forças Armadas recorreram à tecnologia Starlink para restabelecer comunicações em zonas isoladas.
A Starlink permite:
- acesso à internet via satélite
- criação de rede Wi-Fi local
- funcionamento com baterias ou powerbanks em caso de falha elétrica
5 – O papel do Estado e das operadoras
A resiliência das comunicações não pode depender apenas da boa vontade ou da improvisação em crise.
É essencial:
- exigir planos de contingência às operadoras
- reforçar a autonomia energética das antenas móveis
- integrar comunicações por satélite nos planos de proteção civil
As comunicações são hoje um serviço essencial, tão crítico como a água ou a eletricidade.
Investir em redes elétricas enterradas, produção descentralizada, comunicações por satélite e planeamento de emergência são possíveis soluções. Quando tudo falha, a informação e a comunicação tornam-se vitais. Garantir que funcionam nesses momentos é uma questão de segurança e resiliência coletiva.