Quando chove durante dias seguidos e os solos já não conseguem absorver mais água, surgem as cheias. Estradas cortadas, casas inundadas, prejuízos acumulados. Em cada episódio extremo fala-se de prejuízos, de seguros, de reconstrução. Fala-se menos de prevenção.
E, no entanto, existe uma infraestrutura natural que trabalha precisamente para evitar que o pior aconteça: as zonas húmidas.
O que são zonas húmidas?
Zonas húmidas são áreas onde a água está presente de forma permanente ou sazonal. Incluem pauis, lagoas, sapais, estuários, charcos, várzeas de inundação e até arrozais ou salinas.
Durante muito tempo foram vistas como terrenos “improdutivos” ou espaços a drenar e urbanizar. Hoje sabemos que são sistemas essenciais para o equilíbrio ecológico e para a segurança das populações.
Funcionam como esponjas naturais
A principal razão pela qual as zonas húmidas são tão importantes na prevenção de cheias é simples: armazenam água.
Quando ocorre precipitação intensa:
- Retêm grandes volumes de água;
- Abrandam a velocidade do escoamento;
- Libertam a água de forma gradual para rios e aquíferos;
- Reduzem os picos de inundação a jusante.
Em vez de a água escorrer rapidamente por superfícies impermeáveis até transbordar linhas de água, encontra nestes ecossistemas espaço para se espalhar, infiltrar e dissipar energia.
Não eliminam completamente o risco – nenhum sistema o faz – mas amortecem-no de forma significativa.
Amortecem cheias e protegem pessoas
Exemplos recentes mostram como zonas húmidas bem conservadas conseguem reduzir impactos em áreas urbanas próximas. Quando lagoas costeiras, pauis ou planícies de inundação mantêm a sua capacidade natural, conseguem armazenar volumes que, de outra forma, chegariam rapidamente a zonas habitadas.
É difícil quantificar “o que não aconteceu”, mas basta imaginar o cenário inverso: se essas áreas estivessem aterradas ou ocupadas por construção, o excesso de água teria menos espaço para se expandir e os prejuízos seriam maiores.
Em muitos países europeus estão a ser restauradas zonas húmidas precisamente por esta razão: são soluções mais económicas e sustentáveis do que ampliar constantemente infraestruturas de betão.
Muito mais do que controlo de cheias
A função de retenção de água é apenas uma das suas virtudes.
As zonas húmidas:
- Melhoram a qualidade da água, funcionando como filtros naturais de nutrientes e poluentes;
- Recarregam aquíferos subterrâneos;
- Protegem zonas costeiras da erosão;
- Sustentam uma enorme diversidade de espécies.
São sistemas altamente produtivos e prestam serviços que, se tivessem de ser substituídos por infraestruturas artificiais, teriam custos elevadíssimos.
O problema não é a água. É o espaço que lhe tirámos.
Muitas das inundações mais graves ocorrem em locais que eram, historicamente, zonas de expansão natural dos rios. Leitos de cheia foram ocupados, linhas de drenagem foram alteradas e depressões naturais foram aterradas.
Quando a água regressa ao seu caminho natural, encontra obstáculos.
E reage.
A prevenção passa por reconhecer esta realidade e por integrar as zonas húmidas no planeamento territorial como infraestruturas essenciais – não como terrenos disponíveis para expansão urbana.
O que podemos fazer?
Falar de soluções implica ação concreta:
- Proteger as zonas húmidas existentes de novas pressões urbanísticas;
- Restaurar áreas degradadas, devolvendo espaço aos rios;
- Integrar bacias de retenção naturais nos Planos Diretores Municipais;
- Promover corredores ecológicos e vegetação ripícola;
- Sensibilizar comunidades para o valor destes ecossistemas.
Não se trata de romantizar a natureza. Trata-se de gestão inteligente do risco.
Uma escolha estratégica
Num país onde os episódios de chuva intensa têm impacto significativo nas populações, investir em zonas húmidas é investir em segurança.
Cada hectare preservado representa capacidade de retenção, infiltração e amortecimento. Representa menos pressão sobre sistemas de drenagem urbana. Representa menos danos a jusante.
As zonas húmidas não são áreas “sobrantes”. São infraestruturas naturais de proteção civil.
A pergunta que fica não é se podemos dar-nos ao luxo de protegê-las.
É se podemos continuar a ignorar o que elas já fazem por nós.