Num contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos, surgem soluções simples que recuperam saberes antigos para responder a desafios atuais. A Olly Water é um desses exemplos: um projeto que cruza cerâmica, biologia e agricultura para reintroduzir uma técnica ancestral de rega com potes de terracota enterrados no solo.

Através de um sistema natural de sucção, são as próprias plantas que “decidem” quando e quanta água precisam, reduzindo o desperdício e promovendo um uso mais eficiente deste recurso essencial. Mais do que uma solução técnica, a Olly Water propõe uma relação mais consciente com a água, o solo e o tempo.

Nesta entrevista, Elena Casolino e Raquel Vieira explicam como funciona este método, que pode permitir poupanças de água até 70%, e refletem sobre o papel das soluções simples e locais na construção de comunidades mais resilientes.

 

UniPlanet (UP): Para quem ainda não conhece a Olly Water, como descrevem o projeto e a sua missão principal?

O Projeto junta duas pessoas com perfis e atividades que apesar de diferentes, se complementam. A Elena Casolino é designer e ceramista, e a Raquel Vieira, bióloga especializada em agricultura biológica. Em comum temos o respeito para com o ambiente e a necessidade de nos ligarmos a atividades que impliquem contacto direto com a Natureza e a Comunidade.

Em espanhol, estes potes chamam-se “Ollas”. Para dar nome ao Projeto, brincámos um pouco com a palavra e ficou Ollywater, também para relembrar que a água é um recurso sagrado (Holly – Olly). No mundo da Permacultura são, em geral, bastante conhecidas. Foi o próprio Bill Mollison que deu visibilidade a esta técnica antiga, que ainda hoje é utilizada em alguns países afetados pela escassez de água. À falta de uma palavra em português para o objeto em si, optámos por chamar pote.

O primeiro grande objetivo ou missão deste Projeto é recuperar, inovar e divulgar uma técnica de irrigação ancestral e sustentável. Mas este foi apenas o ponto de partida. Há cerca de 5 anos abrimos o Ateliê da Ollywater, na Costa da Caparica, funciona como escritório, oficina, espaço para workshops e ainda como ponto de venda de algum artesanato e produtos Ollywater. Assim temos um chão comum que nos permite gerar conteúdos, produtos e atividades relacionadas com os nossos perfis.

 

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UP: A Olly Water recupera uma técnica ancestral de irrigação com potes de terracota. Como funciona este sistema e porque continua a ser tão relevante nos dias de hoje?

Quando enterramos o pote no solo, cheio de água e plantamos à sua volta, a irrigação realiza-se à medida que a água flui para fora do pote devido à força de sucção criada pelas próprias raízes das plantas e/ou se o teor de humidade do solo for muito baixo. Se o pote nunca ficar vazio, é um sistema autónomo e que se regula a si próprio.

Além da poupança de água, o que nos dias de hoje já é muito relevante, este tipo de sistema (exclusivo ou complementar com outros tipos de rega), é também relevante por vários motivos. É benéfico para as plantas, para as pessoas e para o ambiente. Para as plantas porque evita problemas relacionados com a falta ou o excesso de água, promove o crescimento radicular, minimiza a exposição a doenças transmitidas por fungos ou bactérias, entre outras vantagens. Para as pessoas porque reduz tremendamente a quantidade de mão-de-obra necessária para a rega (menos água e menos vezes) e para a monda (reduz o aparecimento de espontâneas). Além disso, desresponsabiliza-nos de falhar na hora de regar. Não somos nós que decidimos “quanto” e “quando”.  É também libertador saber que nos podemos ausentar por uns dias sem nos preocuparmos se as plantas estarão vivas quando voltarmos. Para o ambiente porque a sua produção e utilização pode ter impacto ambiental reduzido.

UP: Dizem que “não é a gravidade que manda, é a planta”. Podem explicar este processo de sucção natural e porque torna a rega mais eficiente?

A parede microporosa do pote de terracota (não vidrada) não permite que a água flua livremente, mas orienta a infiltração de água para fora do pote na direção em que se desenvolve a sucção. Deste modo, a água é disponibilizada de acordo com a necessidade hídrica de cada planta, sem desperdício.

UP: Em termos práticos, que poupança de água é possível alcançar com os potes de barro quando comparados com sistemas de rega tradicionais?

Em termos práticos, a poupança de água dependerá também de outras práticas que devem ser adotadas. Por exemplo, a aplicação/utilização de Cobertura do Solo (“Mulching”) é indispensável seja qual for o tipo de rega utilizada ou o tipo de agricultura que é praticada. Em termos teóricos e de acordo com a bibliografia disponível, entre 50 a 70% em relação à rega por balde ou mangueira. Ainda estamos na fase de recolha de dados e a realizar pequenos ensaios em campo. Tendo em conta a nossa escala (local) e, por enquanto, sem recorrer a qualquer investimento ou financiamento externo, são ensaios simples, informais e ainda com pouco carácter científico.

 

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UP: Que tipos de contextos beneficiam mais desta solução – hortas familiares, escolas, espaços urbanos, projetos comunitários ou agricultura de maior escala?

Solos muito argilosos ou demasiado pedregosos não são os mais adequados para este tipo de sistema. A par com uma ou outra situação pontual em que este sistema é de difícil aplicação, qualquer contexto beneficiaria desta solução. Principalmente em zonas de escassez de água. Aliás, existem países (como o Irão por exemplo) que utilizam esta técnica atualmente. Depende mais do nível de investimento que as pessoas estão dispostas ou podem fazer.

Por enquanto os nossos produtos adequam-se a pequenos e médios espaços (jardins, hortas, canteiros, varandas, vasos, etc.). A nossa produção é inteiramente artesanal e privilegiamos parceiros e recursos locais. Soluções para maior escala, obrigar-nos-iam a industrializar um pouco o processo, o que neste momento, não é a nossa vontade, e como consequência aumentaria o impacto ambiental do produto e/ou a não atribuição do valor justo a alguém ou a uma parte do processo.

O ideal seria aplicar esta técnica a escalas maiores e torná-la uma alternativa prática e possível para agricultores e empresários agrícolas. Como em tudo, depende mais da quantidade de investimento e das prioridades que os investidores e decisores (públicos ou privados) têm. Há uns anos, a UBI (Universidade da Beira Interior) começou com ensaios em campo com esta técnica para área da fruticultura. Estamos expectantes e curiosas com os resultados.

UP: Um dos vossos projetos mais recentes envolve a criação de Ilhas de Biodiversidade numa escola pública. Como surgiu esta parceria e que impacto esperam que tenha nos alunos e na comunidade escolar?

Sim. O Vítor Gordo das Ilhas de Biodiversidade contactou-nos e desafiou-nos a participar no projeto para instalar estes potes numa Minifloresta (Método Miyawaki) com o objetivo de aumentar a sua resiliência. É o tipo de desafios que gostamos e nos move. Adaptar os potes (a sua forma e outras características), a técnica e a experiência que fomos reunindo nos últimos anos a um cenário e contexto específico. A ideia é que os potes acompanhem os primeiros 3 ou 4 anos de crescimento desta minifloresta, que são os anos de maior fragilidade relativamente à escassez de água.

A estrela aqui é a minifloresta. Os potes surgem como complemento para aumentar a sua resiliência e consciencializar que a água é um recurso cada vez mais escasso e que importa preservar o mais possível. Quando os alunos e a comunidade escolar se envolvem em projetos deste género geram-se experiências que se levam para sempre. Torna-se evidente para todos que quando juntamos um grupo de pessoas com o mesmo objetivo, podemos fazer coisas incríveis, que à partida parecem impossíveis. Para nós, Ollywater, apenas esperamos que os alunos e a comunidade escolar levem consigo que cada gesto e cada gota de água conta e que é possível optar por modos de vida ou profissões mais respeitosas com o ambiente e a comunidade.

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UP: No caso da Escola Secundária da Amora, os potes estão a ser usados num contexto experimental. Que indicadores estão a observar e que aprendizagens esperam retirar deste laboratório vivo?

O sistema de monitorização ambiental instalado na Escola da Amora foi planeado e é gerido pelo Vítor e as Ilhas de Biodiversidade. É deles, e da Escola, o mérito de todo este trabalho experimental. Existe um indicador associado aos potes, o da humidade do solo. É cedo para tomar conclusões, aguardamos a passagem da Primavera e do Verão para observar se de facto existe uma influência positiva dos potes quando inseridos numa minifloresta e se esta é significativa. É também observada a quantidade de água que flui para fora de cada um potes, que mais tarde, com chegada do Verão, será útil para que se possam retirar mais resultados e conclusões. Em princípio, e mais uma vez a convite do Vítor, replicaremos esta experiência em outras miniflorestas e os resultados serão mais sólidos.

Da nossa parte (Ollywater) apenas apresentámos um plano de rega com vista a garantir que estas árvores e arbustos não sofram com os períodos de maior escassez de água e com vista a autonomia futura, para que não aconteça o efeito contrário ao que pretendemos, que seria o de viciar as raízes a obter água superficialmente ao contrário de promover o crescimento das raízes em profundidade.

UP: A Olly Water cruza áreas como cerâmica, biologia, agricultura e educação ambiental. Porque é importante esta abordagem multidisciplinar quando falamos de sustentabilidade?

A sustentabilidade é exatamente isso, é multidisciplinar e também por isso é tão difícil de pôr em prática. E deve ser também transversal a qualquer sector ou atividade humana. Tentamos, sempre que possível, enquadrar tudo o que fazemos ou produzimos na ótica da sustentabilidade. As áreas com que trabalhamos e que queremos continuar a explorar, complementam-se e refletem o nosso percurso académico, profissional e a nossa vocação.

UP: Para além da rega eficiente, os vossos workshops e atividades comunitárias promovem uma relação diferente com o solo, a água e o tempo. O que sentem que as pessoas levam consigo depois destas experiências?

A perceção, em tom de surpresa, da satisfação e dos benefícios diretos que nos dão este tipo de atividades com contacto direto com os elementos naturais. A capacidade que estas atividades têm de melhorar a nossa concentração, de nos libertar do stress ou das preocupações e de nos unir como comunidade. Também o sentimento que tudo leva o seu tempo, que podemos desacelerar o nosso dia-a-dia e largar por umas horas o mundo digital.

 

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UP: Em tempos de seca e pressão sobre os recursos hídricos, que papel podem ter soluções simples e de baixo impacto como esta na adaptação dos territórios?

Toda. Basta imaginar que se cada quintal, horta familiar, jardim, etc. tivesse soluções de poupança de água, como esta ou outra. Todas juntas, estas pequenas soluções representariam uma estrondosa poupança de água, à semelhança da conversa da torneira aberta. Cada ação conta e cada gota conta nesta questão da gestão da água.

UP: Também trabalham com outras técnicas tradicionais, como as bolas de sementes inspiradas em Masanobu Fukuoka. Porque é importante recuperar e adaptar este tipo de saberes ancestrais?

Nos últimos anos assistimos a tremendos avanços tecnológicos. No entanto, e por vezes, dá ideia que o salto tecnológico foi maior que a perna. É claro que é importante inovar e continuar a fazê-lo, mas isso não pode significar descartar tudo o que vem de trás. A resiliência e sobrevivência do Ser Humano depende dos avanços tecnológicos sim, mas também de conservar tradições, saberes e técnicas. É a nossa capacidade de transmitir conhecimento, de geração em geração, que nos permitiu sobreviver como espécie. O mais importante é as pessoas saberem, de forma livre e gratuita, que podem recorrer a várias técnicas, umas mais antigas outras mais modernas, e ir passando esse conhecimento de geração em geração.

UP: Que desafios têm sentido na implementação destes sistemas – técnicos, culturais ou de mentalidade – e como têm sido superados?

Talvez o mais frequente é a história do “barato” ou do “caro”. Até porque já todos sabemos que o barato sai caro. Talvez não para o cliente/consumidor final, mas será sempre para alguém, ou para o ambiente ou para quem realiza a mão de obra, ou para as gerações futuras, etc.

Em termos técnicos, apesar de haver muita bibliografia online e gratuita, por vezes é contraditória ou insuficiente (por exemplo, a forma ideal dos potes, a mistura da pasta de argila ou como instalar em diferentes contextos/condições). Mas por isso mesmo, por haver esta lacuna, achámos que havia caminho para andar e decidimos criar o Projeto. Aplicar a técnica em ambientes demasiado adaptados a uma agricultura dita convencional é mais complicado, mas não impossível, porque quase tudo na exploração gira em torno do petróleo e uso do tractor (medidas dos talhões, zona da entrelinha, mobilização anual do solo, etc.).

Em termos culturais, na maioria dos casos, não temos sentido resistência à ideia. Aliás, tem sido o oposto, sentimos que as pessoas têm uma necessidade enorme em aprender e absorver este tipo de conhecimento e atividades, como de um balão de ar puro.

Só existem 2 maneiras de superar este tipo de desafios, ou investir uma soma tremenda no projeto e em marketing, o que no nosso caso, por enquanto, está fora de questão. Os produtos devem falar por si e a sua qualidade, infelizmente, nem sempre está espelhada nas campanhas de marketing. A outra, é persistir. Não com palavras, com ações. Continuar a divulgar e a demonstrar: ver para crer. Temos feito um esforço por replicar esta técnica de irrigação em vários locais, com diferentes tipos de solo, de plantas, etc. Em hortas ou jardins de diferentes dimensões, uns mais lineares outros mais naturais. Consideramos também essencial, para a realização de qualquer sonho, projeto ou objetivo profissional, a existência de uma rede de apoio que vá crescendo, onde a informação e entreajuda flui recíproca e livremente.

 

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UP: Como veem o papel das escolas, das autarquias e das comunidades locais na transição para práticas mais regenerativas e eficientes no uso da água?

O papel das escolas e das comunidades locais é talvez o mais importante: ensinar, mostrar e transmitir modos de vida ou perspetivas mais sustentáveis porque mais tarde, traduz-se em seres humanos e comunidades mais saudáveis e felizes. A semente lançada não será nunca esquecida. Hoje em dia, sentimos que são as associações locais e comunitárias que valorizam mais este tipo de ações e projetos.

As autarquias deveriam ter o papel principal e disponibilizar mais verbas, e/ou distribuí-las de um modo mais justo, para este tipo de práticas que beneficiam todos. Estão mais próximas da população, conhecem os territórios e as suas características e são elas que deveriam dar o exemplo. Apesar de todas caminharem para apoiar e valorizar este tipo de práticas e projetos, umas estão mais comprometidas que outras. Na prática e em termos de sustentabilidade, algumas autarquias dão mais peso, ou só “olham” a um único pilar, o económico e para se falar seriamente de sustentabilidade, os 3 pilares devem ter o mesmo peso – o económico, o social e o ambiental.

UP: Que conselhos deixariam a quem quer começar a poupar água na horta ou no jardim, mas acha que precisa de soluções complexas ou dispendiosas?

As pequenas ações contam e fazem toda a diferença. Para além da eficiência do sistema de rega, o importante é reunir e aplicar diversas técnicas. Além do “Mulch”, que é de facto essencial para a jardinagem e em qualquer tipo de agricultura praticado, a escolha das variedades adaptadas à região onde se está, a recolha e aproveitamento da água da chuva e por fim, mas o mais difícil e importante: cuidar do solo. O teor de matéria orgânica do solo influencia a capacidade de absorção e armazenamento de água do solo.

UP: Quais são os próximos passos da Olly Water e que sonhos gostariam de ver concretizados nos próximos anos?

Queremos continuar a explorar a utilização da terracota porosa para outro tipo produtos e soluções o mais sustentáveis possível, também elas ancestrais, como por exemplo o armazenamento de água ou alimentos e arrefecimento passivo do ar. Queremos alargar a equipa e a nossa rede de apoio, chegar a mais pessoas e mais regiões. Por enquanto, temos 2 cabeças, 4 mãos e 4 pés, acaba por nos faltar tempo ou braços para tudo aquilo que envolve o Projeto e o nosso Ateliê. Até aqui, contámos com o apoio de amigos e parceiros mais ou menos formais e que fizeram toda a diferença no nosso percurso.

 

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Última atualização: 22 Março 2026