Entre comida 100% vegetal, artesanato ético e uma comunidade em crescimento, o Coimbra Vegan Market tem vindo a afirmar-se como muito mais do que um simples mercado. Criado por Chiara Saitta com o objetivo de apoiar o santuário animal Riza e dar visibilidade a pequenos projetos vegans da região, o evento tornou-se um espaço de encontro, partilha e sensibilização em Coimbra.

Nesta entrevista ao UniPlanet, Chiara fala sobre o nascimento do projeto, a ligação ao Riza Animal Sanctuary, o crescimento da comunidade vegan na cidade e a vontade de criar um espaço acolhedor, sustentável e sem julgamentos – aberto tanto a vegans como a curiosos que visitam o mercado pela primeira vez.

UniPlanet (UP): Como nasceu o Coimbra Vegan Market? Houve algum momento ou necessidade específica que levou à sua criação?

O Coimbra Vegan Market nasceu com dois objetivos claros: angariar fundos para o santuário Riza e apoiar os pequenos negócios veganos da região. Quando me mudei para Coimbra vinda de Inglaterra, não conseguia acreditar que havia tão poucas opções vegan na cidade. Estava convicta de que existiam pequenos projetos e artesãos que simplesmente não tinham um espaço para se dar a conhecer. Em paralelo, tinha começado há pouco tempo a fazer voluntariado no Riza Animal Sanctuary e o santuário precisava de apoio financeiro. O mercado foi uma espécie de aposta, mas uma aposta em que acreditava profundamente.

UP: No início, imaginavam que o projeto iria crescer desta forma?

De forma alguma! No início tínhamos apenas 10 vendedores e os primeiros mercados realizavam-se num espaço muito pequenino. Mas a resposta das pessoas foi imediata e avassaladora. O primeiro evento correu muito bem: vieram imensas pessoas e muitas diziam-me “obrigada, precisávamos de algo assim”. Essa resposta deu-nos a confirmação de que estávamos a preencher uma lacuna real.

UP: Dizem que o mercado é “mais do que um simples evento, é uma comunidade”. O que é que isso significa na prática?

Significa que entre os nossos vendedores não há competição, mas sim apoio genuíno. Nasceram amizades verdadeiras, colaborações espontâneas, uma rede de pessoas que se ajudam mutuamente. Como veganos, representamos cerca de 1% do mundo empresarial: competir entre nós não faria qualquer sentido. Uma comunidade cresce junta, e é exatamente isso que está a acontecer. E é precisamente graças a esta comunidade que conseguimos continuar o trabalho no santuário: o mercado é a principal fonte de apoio para o Riza.

UP: Que tipo de ambiente ou experiência querem criar para quem visita o mercado?

Queremos que quem entre no mercado respire um ar de acolhimento e respeito. Um lugar aberto a todos, sem julgamento, onde as pessoas se sintam livres para explorar, provar e descobrir. E claro, desfrutar de um dia de comida maravilhosa feita com amor e de artesanato incrível. O Coimbra Vegan Market não foi pensado apenas para quem já é vegano – é um espaço para toda a gente.

UP: O mercado apoia o santuário Riza. Como é que essa ligação surgiu?

A ligação nasceu ao mesmo tempo que o mercado. Quando concebi o projeto, já estava a fazer voluntariado no Riza Animal Sanctuary e ver de perto o trabalho diário com os animais – e os recursos limitados com que se opera – convenceu-me de que o mercado podia tornar-se um instrumento concreto de apoio. Não uma doação ocasional, mas uma fonte estável e recorrente. Hoje, o mercado é o principal suporte financeiro do santuário.

UP: De que forma o mercado contribui concretamente para o trabalho do santuário?

Uma parte das receitas de cada edição vai diretamente para o Riza Animal Sanctuary, contribuindo para as despesas veterinárias, a alimentação dos animais e a gestão quotidiana do refúgio. Mas o contributo é também de visibilidade: cada mercado é uma oportunidade para dar a conhecer o santuário a novas pessoas, sensibilizar e criar novos apoiantes.

UP: Como é feita a seleção dos projetos e expositores que participam no mercado?

Recebo muitos e-mails e mensagens de pedido de participação, e sou muito seletiva. Para os projetos de culinária, não basta propor comida vegana: é importante que quem produz também esteja alinhado com os valores veganos. Para os projetos de artesanato, o critério é semelhante – têm de ser veganos nos materiais e na abordagem – mas procuro sobretudo pessoas que queiram verdadeiramente fazer parte desta comunidade, e não apenas acrescentar mais um mercado ao seu calendário.

UP: O que procuram nos projetos que convidam – é mais importante o produto ou os valores por trás dele?

Os valores, sem dúvida. Um produto bonito não chega se não houver coerência ética por detrás. Procuro pessoas que acreditem no que fazem, que tenham escolhido o veganismo como estilo de vida e não como estratégia de mercado. Essa autenticidade nota-se, e os visitantes percebem-na.

UP: Há alguma história ou projeto que vos tenha marcado particularmente desde que começaram?

Há projetos que estão comigo desde o início, e é maravilhoso ver a sua evolução: como cresceram, como se afirmaram, como se tornaram referências sólidas e reconhecidas. Saber que contribuí, ainda que em parte, para esse percurso é uma das maiores satisfações deste trabalho.

UP: Sentem que há cada vez mais interesse por este tipo de eventos e por uma alimentação de base vegetal em Coimbra?

Absolutamente. O crescimento do mercado fala por si. Há uma curiosidade cada vez mais generalizada, mesmo entre pessoas que não se identificam como veganas, em direção a um estilo de vida mais consciente e a uma alimentação mais ética e sustentável. Coimbra é uma cidade jovem, universitária, aberta – e isso reflete-se no público que nos segue.

UP: Para quem nunca visitou o mercado ou não tem contacto com o veganismo, o que gostariam que levasse da experiência?

Gostaria que levassem uma sensação: a de terem descoberto que o veganismo não é uma renúncia, mas um mundo rico, criativo, delicioso e acolhedor. E talvez uma nova curiosidade – sobre a comida, sobre os animais, sobre escolhas quotidianas mais conscientes.

UP: O Coimbra Vegan Market também se apresenta como um espaço sustentável. Como é que isso se reflete na prática do evento?

A sustentabilidade é parte integrante da nossa identidade. Pedimos aos vendedores que evitem embalagens de plástico de uso único, privilegiamos materiais recicláveis ou reutilizáveis, e sensibilizamos o público para práticas de consumo mais responsáveis. Não se trata apenas de estética – é coerência com os valores que o mercado representa.

UP: Que papel acham que espaços como este têm numa cidade como Coimbra, em termos de criação de comunidade?

Um papel fundamental. Espaços como o nosso demonstram que é possível construir economia, comunidade e cultura de forma ética. Dão visibilidade a realidades que de outra forma teriam dificuldade em emergir, e criam pontes entre pessoas diferentes unidas por valores partilhados. Numa cidade como Coimbra, com tanta energia jovem e progressista, este tipo de espaço encontra um terreno fértil.

UP: Quais têm sido os maiores desafios na organização do mercado?

Os desafios logísticos e organizativos são muitos – encontrar espaços adequados, gerir as comunicações, coordenar vendedores e voluntários. Mas o desafio mais profundo é manter a alma do projeto intacta enquanto cresce. Que o mercado continue a ser um lugar autêntico, e não um evento qualquer.

UP: O que é mais difícil: manter o projeto ou fazê-lo crescer?

Mantê-lo, sem dúvida. Crescer é entusiasmante, mas manter a qualidade, a coerência e o espírito original enquanto se escala é muito mais complexo. É um equilíbrio constante entre abertura e seleção, entre crescimento e identidade.

UP: Como imaginam o Coimbra Vegan Market daqui a alguns anos?

Imagino-o como um evento fixo no calendário cultural de Coimbra, com edições temáticas, uma presença mais estruturada no território e um impacto cada vez mais significativo para o santuário Riza. Sonho com um mercado que seja também um espaço de educação e diálogo, não apenas de venda.

UP: Há novos formatos ou ideias que gostariam de explorar no futuro?

Sim, há muitas ideias em desenvolvimento – talks, workshops, momentos de sensibilização sobre temáticas animais e ambientais. Queremos que o mercado se torne cada vez mais um espaço de encontro cultural, e não apenas comercial.

UP: Se tivessem de resumir o Coimbra Vegan Market numa frase, qual seria?

Um mercado nascido do amor pelos animais, que cresce graças às pessoas.

UP: Porque é que alguém deve visitar o Coimbra Vegan Market pela primeira vez?

Porque vai encontrar comida deliciosa, artesanato autêntico e uma atmosfera que raramente se encontra noutro lugar – calorosa, inclusiva, sem julgamento. E porque cada compra se torna um ato concreto de apoio aos animais do santuário Riza. Vir ao mercado significa fazer o bem, desfrutando de um dia maravilhoso.

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Última atualização: 17 Maio 2026