O projeto One Piece After Another nasceu do desejo de cuidar do planeta “um pedaço de cada vez”. Em poucos anos, já retirou mais de 66 toneladas de lixo da natureza e inspirou centenas de voluntários a agir. O UniPlanet falou com Ricardo Machado, o seu fundador, sobre o caminho percorrido, os desafios e a importância de educar para um futuro mais limpo.

UniPlanet (UP): Como nasceu o projeto One Piece After Another em 2019 e o que te motivou a começar?

Desde criança que sempre me senti ligado à natureza e à fotografia. Com o tempo, essa ligação transformou-se numa necessidade de agir. Sentia alguma inquietação ao ver o impacto do lixo nos ecossistemas e uma enorme vontade de deixar um planeta mais saudável para as gerações futuras. Assim nasceu o One Piece After Another, em 2019 – fruto de um impulso genuíno de cuidar do território onde vivo e de contribuir, mesmo que fosse pouco, para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030.

UP: Em poucos anos já conseguiste mobilizar milhares de voluntários e recolher 63 toneladas de resíduos. Qual é o segredo para envolver tanta gente?

Neste momento já ultrapassámos as 66 toneladas de resíduos recolhidos. O segredo, se é que há um, está nas parcerias e no espírito de comunidade. Sempre tentei que as ações fossem colaborativas, abertas a todos – escolas, empresas, associações, autarquias – sempre sem fins lucrativos e com um ambiente positivo. As pessoas sentem que estão a fazer algo bom, de forma leve, alegre e significativa. No fundo, todos queremos cuidar do planeta, e quando o fazemos juntos, o impacto é muito maior.

UP: O nome do projeto tem algum significado especial?

Tem sim. O nome surgiu em inglês porque, na altura, tinha mais seguidores internacionais. “One Piece After Another” significa literalmente “um pedaço depois de outro”, referindo-se ao lixo que recolhemos – mas também à ideia de que cada um de nós é uma peça essencial nesta missão. Sozinhos fazemos pouco, mas juntos completamos o puzzle da mudança.

UP: Quais são as zonas onde tens atuado com mais regularidade?

Temos atuado sobretudo entre a Praia do Pedrógão e a Praia do Norte, com maior incidência nas praias dos concelhos da Marinha Grande e de Alcobaça – desde a Vieira até à Légua – e também no Pinhal de Leiria, um território com enorme valor ambiental e simbólico.

UP: O que encontras mais frequentemente durante as limpezas?

Infelizmente, as beatas continuam a ser o resíduo mais comum, em qualquer local. Nas praias há também muitos microplásticos, cotonetes, tampas e restos de redes de pesca. No pinhal, encontramos embalagens, garrafas, toalhetes e maços de tabaco. É impressionante como tantos destes resíduos são de uso único – um desafio direto aos ODS e à urgência de reduzir o consumo descartável.

UP: Há algum momento que te tenha marcado particularmente?

Há vários. Um deles foi numa ação na praia do Samouco, onde encontrámos uma baleia-anã arrojada. As crianças que estavam presentes ficaram em silêncio – um silêncio cheio de respeito e tristeza. São momentos assim que nos lembram porque é tão importante o que fazemos. Mas também há momentos muito positivos, como as ações com escolas do ensino básico: ver grupos enormes de crianças a dizer que querem “salvar o mundo” é algo que me enche de esperança.

UP: Notas alguma mudança nos tipos de resíduos ao longo dos anos?

Infelizmente, noto que a quantidade de lixo tem aumentado. É verdade que já não vemos tantas palhinhas, mas surgem outros materiais – como toalhetes e microplásticos – que acabam por ser ainda mais difíceis de controlar. A educação e a redução do consumo continuam a ser fundamentais.

UP: Também realizas palestras e ações de sensibilização em escolas e na comunidade. Como é a reação dos mais jovens?

Tem sido muito positiva. Os mais novos são autênticos, curiosos e ainda mantêm uma ligação muito forte à natureza. Já os jovens precisam de ser cativados de forma diferente, mas quando percebem o impacto real do lixo, tornam-se aliados poderosos. As escolas são parceiras fundamentais, e o trabalho que fazemos em conjunto contribui diretamente para o PASEO e para as estratégias municipais de educação e sustentabilidade ambiental.

UP: Sentes que a consciência ambiental da população da região está a crescer?

Sim, acredito que sim. Cada vez mais pessoas participam nas ações e começam a mudar hábitos – pequenas coisas, como deixar de atirar beatas ao chão ou reduzir o uso de plástico. Estas mudanças levam tempo, mas são o início de algo maior. As escolas e as autarquias estão a desempenhar um papel importante nesse caminho.

UP: Qual é a importância da educação para evitar que o lixo chegue ao mar e à floresta?

A educação é o alicerce de tudo. Limpar é necessário, mas não chega – se não educarmos, estaremos sempre a limpar sem resolver o problema. As pessoas precisam de perceber que o lixo não desaparece quando o “deitam fora”. Cada resíduo mal descartado fica por aí: no pinhal, no rio, no mar. É um compromisso coletivo, e é por isso que o meu trabalho também passa por sensibilizar, formar e inspirar.

UP: Que balanço fazes destes seis anos de projeto?

Tem sido um percurso de muito trabalho, dedicação e compromisso – tanto em tempo como em materiais. É um esforço contínuo, feito de forma voluntária, que exige planeamento, logística e muita persistência. Felizmente, a corrente de voluntários tem crescido de forma notável e isso enche-me de orgulho. Mas também mostra que um projeto com esta dimensão merece reforços e apoios que o tornem mais sustentável a longo prazo. Esta energia coletiva, esta vontade de cuidar, precisa de ser valorizada e acompanhada – é isso que faz a diferença e que garante que a mudança continue.

UP: O que mais te orgulha quando olhas para o caminho percorrido até aqui?

Mais do que os números, são as pessoas que mais nos orgulham. Ao longo destes anos temos conhecido pessoas extraordinárias – voluntários, professores, famílias, autarcas – todos movidos pelo mesmo sentido de responsabilidade e amor à natureza. É inspirador ver como o movimento tem crescido, e como cada ação se transforma num momento de partilha e aprendizagem.

O orgulho está em nunca termos desistido, mesmo quando éramos poucos. Porque cada pessoa conta, e é da soma de todos os gestos que nasce uma comunidade mais consciente e saudável.

UP: Quais são os maiores desafios que enfrentas atualmente para manter e expandir o projeto?

O grande desafio é, sem dúvida, a logística. As áreas que intervencionamos são extensas, e o lixo tem muitas vezes de ser transportado a partir de zonas de difícil acesso, longe da praia ou do pinhal. Uma moto 4 com atrelado, ou uma viatura de apoio, faria uma enorme diferença.

Até aqui, temos conseguido com os nossos próprios meios e muita entreajuda, mas é um esforço grande, sobretudo porque queremos garantir segurança, eficiência e continuidade. Um apoio institucional mais sólido ajudaria a otimizar os recursos e a permitir que mais pessoas participem com melhores condições.

UP: Tens algum sonho ou objetivo a longo prazo – por exemplo, tornar a região da Marinha Grande/Leiria uma referência nacional na luta contra o lixo?

Esse é um sonho que partilhamos. A região tem um património natural riquíssimo e uma comunidade muito participativa – reúne todas as condições para se tornar uma referência nacional na proteção ambiental.

A longo prazo, gostaríamos de ver este trabalho integrado de forma estruturada nas estratégias municipais, com equipas locais permanentes e ações regulares. Fazer disto uma atividade a tempo inteiro, apoiada por entidades públicas e privadas, permitiria expandir o impacto e criar uma cultura ambiental sólida e duradoura.

UP: O teu trabalho depende também de donativos. De que forma as pessoas podem contribuir e ajudar?

Toda a ajuda é bem-vinda. As pessoas podem contribuir com materiais – como luvas, pinças, sacos ou pás – ou com donativos que ajudam a cobrir as despesas de deslocação e reposição de equipamentos. Há também a possibilidade de apoiar através de plataformas de crowdfunding ou por transferência direta.

Mais do que o valor em si, o importante é o envolvimento. Cada contributo é um gesto de confiança e um reforço da rede que sustenta este movimento coletivo.

UP: Para quem nunca participou numa limpeza, como é a experiência e o que pode esperar?

É uma experiência leve e muito enriquecedora. As ações têm sempre um ambiente alegre e acolhedor, onde todos são bem-vindos, independentemente da idade ou da condição física. Há quem encha vários sacos, outros apanham apenas alguns objetos – e está tudo certo. O importante é participar, estar em contacto com a natureza e sentir que se faz parte de algo maior.

No final, a sensação é de gratidão: pelo convívio, pelo ar livre, e por perceber que cuidar do ambiente é também cuidar da nossa saúde e bem-estar.

UP: Que mensagem gostarias de deixar a quem te segue ou está a ler esta entrevista no UniPlanet?

A mensagem é simples: todas as ações contam. Pequenos gestos, repetidos por muitos, fazem uma enorme diferença. O projeto começou com um saco de lixo e vontade – e é assim que as grandes mudanças nascem.

Cuidar do planeta não é um ato isolado, é um compromisso de todos. Se cada pessoa fizer a sua parte, um pedaço de cada vez, construiremos juntos um futuro mais limpo, saudável e equilibrado.

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Última atualização: 3 Janeiro 2026