Um dos fatores mais determinantes na queda de árvores durante tempestades é frequentemente ignorado: o solo.
Em condições naturais, o solo funciona como uma esponja viva. Absorve parte da água da chuva, armazena-a temporariamente e liberta-a lentamente, garantindo estabilidade às plantas e reduzindo a escorrência superficial. Quando chove de forma intensa durante vários dias, mesmo solos saudáveis podem saturar. Mas nas cidades, esse equilíbrio está profundamente alterado.
Grande parte do espaço urbano é coberto por betão, asfalto ou pavimentos impermeáveis. O resultado é duplo:
- a água não consegue infiltrar-se no solo, acumulando-se à superfície;
- as raízes das árvores crescem em espaços limitados, compactados e pobres em oxigénio.
Quando o solo se encontra encharcado, perde resistência. A ligação entre raízes e terra enfraquece e, mesmo com ventos que não seriam problemáticos noutros contextos, as árvores podem tombar. Não porque sejam frágeis por natureza, mas porque não lhes foi dado um solo funcional para se ancorarem.
Árvores urbanas sob stress permanente
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, as árvores nas cidades vivem em condições particularmente exigentes. Espaço reduzido para as raízes, solos compactados, impermeabilização à volta do tronco, poluição, ilhas de calor, podas frequentes e, por vezes, mal executadas.
Ao longo do tempo, estes fatores acumulam-se e enfraquecem a estrutura das árvores. Algumas desenvolvem raízes superficiais porque não conseguem aprofundar-se. Outras tornam-se mais vulneráveis a doenças, podridões internas ou desequilíbrios na copa. Tudo isto reduz a sua capacidade de resistir a episódios extremos.
Quando chega uma tempestade, o problema não começa nesse dia. O que vemos é apenas a consequência de escolhas feitas muito antes.
Água que escorre em vez de infiltrar
Outro elemento-chave é a forma como as cidades lidam com a água da chuva. Durante décadas, o objetivo principal foi afastá-la o mais depressa possível: canalizá-la, encaminhá-la para os esgotos, escondê-la debaixo do chão.
Este modelo tem limites evidentes. Quando chove muito em pouco tempo, os sistemas de drenagem ficam sobrecarregados e a água procura caminhos alternativos à superfície. Aumenta a pressão sobre raízes, infraestruturas e edifícios, agravando o risco de cheias e quedas de árvores.
Tratar a água da chuva apenas como um problema a eliminar é desperdiçar um recurso e criar vulnerabilidade. Cidades mais seguras são cidades que sabem reter, infiltrar e gerir a água localmente.
O que pode e deve mudar
Alguns exemplos de medidas fundamentais:
- Devolver permeabilidade ao solo urbano, substituindo pavimentos impermeáveis por soluções drenantes em passeios, praças e parques de estacionamento.
- Criar mais espaço contínuo para as raízes, evitando árvores isoladas em pequenas covas e promovendo faixas de solo partilhado.
- Integrar árvores na gestão da água da chuva, usando caldeiras permeáveis, jardins de chuva e zonas de retenção natural.
- Diversificar espécies, reduzindo a vulnerabilidade a doenças e aumentando a estabilidade do conjunto.
- Planear a longo prazo, respeitando o porte adulto das árvores e o tempo que precisam para se estabelecerem.
- Cuidar melhor nos primeiros anos, garantindo rega adequada, solos vivos e acompanhamento técnico.
Estas soluções não servem apenas para proteger as árvores. Protegem pessoas, infraestruturas e bairros inteiros.
As árvores não são o problema, são parte da solução
Cidades com menos árvores não são cidades mais seguras. São cidades mais quentes, mais impermeáveis, com pior qualidade do ar, maior escorrência superficial e menor capacidade de adaptação.
Árvores bem integradas ajudam a estabilizar o solo, a regular a água, a reduzir temperaturas extremas e a tornar os espaços urbanos mais habitáveis. Retirá-las ou tratá-las como obstáculos é aprofundar o problema que se pretende resolver.
As árvores não caem por acaso. Caem quando são tratadas como elementos decorativos, desligados do solo, da água e do tempo longo de que dependem.
Reforçar a permeabilidade das cidades, cuidar dos solos e integrar a natureza no planeamento urbano é um passo essencial para criar territórios mais seguros e resilientes.