Nos últimos séculos, habituámo-nos a olhar para a natureza como um conjunto de recursos a explorar – madeira, água, solo, energia. Mas e se essa perspetiva estiver profundamente limitada?
Em Lições da Natureza, a investigadora e professora Luísa Ferreira Nunes propõe uma mudança essencial: deixar de perguntar “o que podemos retirar da natureza?” e começar a perguntar “o que podemos aprender com ela?”.
Com um percurso que cruza ciência, biomimética e ilustração naturalista, a autora convida-nos a redescobrir o mundo natural como um verdadeiro sistema de conhecimento – afinado ao longo de milhões de anos – capaz de inspirar soluções para desafios contemporâneos, da organização das cidades à forma como vivemos em sociedade.
Nesta entrevista, falamos sobre biomimética, observação, limites, regeneração e sobre aquilo que talvez seja a lição mais urgente do nosso tempo: aprender a voltar a escutar a natureza.
UniPlanet (UP): Como começou a sua ligação à natureza? Houve algum momento ou experiência que tenha sido decisivo?
A minha ligação à natureza não nasceu de um momento isolado nem de uma experiência súbita. Nasceu do ambiente em que cresci. Tive a sorte de crescer com pais profundamente apaixonados pela natureza e com um conhecimento muito sólido do mundo natural. Desde muito cedo, fui exposta à observação de animais, plantas, paisagens e ciclos naturais. Em nossa casa, a natureza não era algo distante ou decorativo. Era algo que se observava, se respeitava e se procurava compreender. Foi esse ambiente, vivido de forma contínua, que moldou o meu olhar e acabou por definir, de forma muito natural, todo o meu percurso científico e humano.
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UP: A sua trajetória cruza ciência, investigação e ilustração. Como é que estas diferentes dimensões se foram encontrando ao longo do tempo?
Na verdade, para mim nunca existiram fronteiras muito claras entre essas áreas. O desenho surgiu muito cedo como uma extensão da observação científica. Quando desenhamos um inseto, uma folha, uma estrutura anatómica ou um padrão natural, somos obrigados a ver com uma profundidade que muitas vezes escapa ao olhar rápido. A ciência deu-me rigor, método e capacidade de questionar. O desenho deu-me tempo, atenção ao detalhe e uma forma muito íntima de observar. A investigação acabou por nascer naturalmente desse encontro.
UP: Para quem não está familiarizado com o conceito, como explicaria a biomimética de forma simples?
A biomimética é uma área científica que procura aprender com os organismos vivos e com os ecossistemas para resolver desafios humanos. Ao longo de cerca de 3,8 mil milhões de anos, a vida foi testando soluções, eliminando aquilo que não funciona e refinando aquilo que resulta. A biomimética convida-nos a fazer uma pergunta muito simples: em vez de inventarmos tudo de raiz, porque não aprender com aquilo que a natureza já resolveu?

UP: No seu livro, fala da natureza como mentora e não apenas como recurso. O que muda, na prática, quando fazemos essa mudança de perspetiva?
Muda quase tudo. Quando vemos a natureza apenas como recurso, a pergunta tende a ser: o que posso retirar daqui? Quando a vemos como mentora, a pergunta passa a ser: o que posso aprender? Essa mudança altera profundamente a forma como desenhamos produtos, cidades, sistemas económicos, organizações e até relações humanas. Passamos de uma lógica de extração para uma lógica de aprendizagem.
UP: Há algum exemplo da natureza que a tenha particularmente surpreendido ou marcado, e que ilustre bem essa forma de aprender com os sistemas vivos?
Há muitos, e talvez isso seja precisamente uma das riquezas da biomimética. Continuo profundamente fascinada pela forma como os ecossistemas maduros conseguem funcionar sem desperdício. Numa floresta, por exemplo, praticamente nada se perde. Aquilo que para um organismo é fim, para outro torna-se início. Existe uma inteligência sistémica, uma circularidade e uma capacidade de regeneração que continuam a impressionar-me profundamente e que têm muito para nos ensinar.
UP: O que a motivou a escrever Lições da Natureza neste momento?
Na verdade, este livro não surgiu de uma decisão isolada. É o resultado de um percurso longo. O meu primeiro contacto com a biomimética aconteceu há muitos anos, durante o meu doutoramento nos Estados Unidos, quando ouvi falar desta área pela primeira vez. Essa descoberta despertou imediatamente a minha curiosidade científica e, a partir daí, seguiu-se um percurso de formação, estudo aprofundado e aplicação prática deste conhecimento. Comecei a introduzir a biomimética nas cadeiras que lecionava e também tive o privilégio de abordar este tema como docente convidada num mestrado do Instituto Superior Técnico.
Ao longo dos anos fui escrevendo muitos ensaios e reflexões sobre biomimética. Mais recentemente, tive a oportunidade de criar para o jornal Público o podcast Lições Naturais, que acabou por despertar um interesse muito grande nestes temas. De certa forma, este livro surge como uma continuação natural desse percurso e dessa conversa que já vinha a acontecer com o público.
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UP: Ao longo do livro, cruza ciência com uma dimensão quase filosófica sobre a forma como vivemos. Esse equilíbrio foi intencional?
Sim, completamente. A ciência ajuda-nos a compreender como os sistemas funcionam, mas a natureza não nos ensina apenas mecanismos. Ensina-nos princípios. Ensina-nos adaptação, cooperação, limites, regeneração, interdependência. Seria impossível falar de biomimética ignorando essa dimensão mais profunda.
UP: Há alguma “lição” da natureza que considere especialmente urgente ou relevante para a sociedade atual?
Sim. Talvez uma das mais urgentes seja perceber que nenhum sistema saudável cresce indefinidamente. Na natureza, crescimento e equilíbrio caminham juntos. Os sistemas maduros não procuram crescer sem limites. Procuram estabilidade, diversidade, resiliência e capacidade regenerativa. Creio que esta é uma lição muito atual.
UP: Muitas vezes associamos estas ideias à tecnologia ou ao design, mas no livro mostra que podem ser aplicadas ao quotidiano. Pode dar alguns exemplos concretos?
Claro. Podemos aplicar princípios biomiméticos na forma como gerimos tempo e energia, na organização de equipas, na educação, na agricultura, na arquitetura ou mesmo na forma como tomamos decisões. A natureza mostra-nos, por exemplo, a importância dos ritmos, da diversidade de funções, da cooperação e da utilização eficiente dos recursos.
UP: Como é que estes princípios podem influenciar a forma como organizamos comunidades, cidades ou até relações humanas?
Os sistemas vivos mostram-nos que resiliência não nasce do controlo absoluto, mas de redes saudáveis de cooperação, diversidade e interdependência. Uma comunidade humana, uma cidade ou uma organização podem tornar-se muito mais robustas quando incorporam esses princípios.
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UP: Sente que, atualmente, estamos mais afastados ou mais próximos da natureza do que no passado?
Paradoxalmente, temos hoje mais conhecimento científico sobre a natureza do que alguma vez tivemos, mas muitas vezes menos contacto direto com ela. Sabemos mais, mas observamos menos. E observar continua a ser essencial.
UP: O que considera mais importante para reconstruirmos essa relação?
Recuperarmos a capacidade de observar com tempo, com atenção e com humildade. A natureza continua a falar connosco. O problema é que muitas vezes não sabemos escutar.
UP: Integra ilustração naturalista no seu trabalho. O desenho é uma forma de observar melhor?
Sem dúvida. O desenho obriga-nos a abrandar e a ver aquilo que muitas vezes passa despercebido. Obriga-nos a entrar verdadeiramente na estrutura, na forma, na proporção, no detalhe. É uma ferramenta extraordinária de observação científica.

UP: O que é que a ciência ganha quando se cruza com práticas artísticas?
Ganha profundidade de observação, criatividade na formulação de perguntas e, muitas vezes, novas formas de comunicar conhecimento complexo. A arte pode abrir portas que, por vezes, a linguagem científica isolada não consegue abrir.
UP: Se tivesse de deixar uma ideia central para quem lê Lições da Natureza, qual seria?
Que a natureza não é algo que está fora de nós. Nós somos natureza. E quanto mais compreendermos os princípios que sustentam a vida, melhores poderão ser as soluções que criamos.
UP: O que acha que a natureza nos está a tentar ensinar neste momento da nossa história?
Que eficiência sem sabedoria não basta. Que crescimento sem limites não é evolução. E que os sistemas mais duradouros não são necessariamente os mais fortes, mas os que melhor sabem cooperar, adaptar-se e regenerar-se.