Durante séculos, as bibliotecas foram vistas como locais silenciosos onde se iam buscar livros. Hoje, essa visão está a mudar rapidamente. Em toda a Europa, as bibliotecas estão a reinventar-se como espaços de encontro, aprendizagem, criatividade e participação cidadã.

A transformação é tão profunda que muitos especialistas já lhes chamam “terceiros espaços”: locais que não são nem casa nem trabalho, mas onde qualquer pessoa pode aprender, criar, colaborar e sentir-se parte da comunidade.

E Portugal já começa a seguir esta tendência.

Das estantes para a comunidade

A histórica Biblioteca de Alexandria era muito mais do que um edifício cheio de manuscritos. Era um local onde investigadores, filósofos e cidadãos partilhavam ideias e construíam conhecimento em conjunto.

Mais de dois mil anos depois, essa filosofia está de regresso.

Atualmente, muitas bibliotecas europeias procuram responder aos desafios da sociedade digital, oferecendo experiências que vão muito além do empréstimo de livros.

Segundo Barbara Kieslinger, investigadora do Centre for Social Innovation (Áustria) e coordenadora do projeto europeu make-a-thek, “já não basta emprestar livros ou vídeos. As bibliotecas querem proporcionar novos tipos de experiências.”

Bibliotecas como oficinas de criatividade

Uma das grandes apostas passa pela criação de makerspaces, espaços colaborativos onde qualquer pessoa pode aprender novas competências, experimentar tecnologias e desenvolver projetos criativos.

Ao contrário de uma oficina tradicional, estes espaços promovem a aprendizagem entre pares e a colaboração entre diferentes gerações e áreas de conhecimento.

Entre as atividades encontram-se:

  • oficinas de costura;
  • reparação de roupa;
  • artesanato;
  • fabrico digital;
  • impressão 3D;
  • preservação de ofícios tradicionais;
  • economia circular.

O objetivo não é apenas ensinar uma técnica, mas criar comunidades que aprendem em conjunto.

Economia circular dentro das bibliotecas

Um dos aspetos mais interessantes do projeto europeu make-a-thek é o foco na moda sustentável e nos ofícios tradicionais.

Em vez de incentivar o consumo, as bibliotecas passam a ensinar como:

  • reparar roupa;
  • reutilizar tecidos;
  • recuperar peças antigas;
  • aprender técnicas tradicionais;
  • combinar artesanato com tecnologias digitais.

Desta forma, transformam-se em centros locais de economia circular, reduzindo desperdícios e preservando património cultural.

O projeto decorre entre 2025 e 2028, conta com um financiamento europeu de cerca de 4 milhões de euros e pretende criar modelos facilmente replicáveis em bibliotecas de toda a Europa.

Os cidadãos deixam de ser apenas utilizadores

Outro projeto europeu, o LibrarIN, estudou como as bibliotecas podem envolver diretamente os cidadãos na criação dos seus próprios serviços.

Em vez de decidirem sozinhas quais as atividades a oferecer, muitas bibliotecas estão a recorrer à cocriação, convidando a comunidade a participar na definição da programação.

O projeto reuniu uma das maiores bases de conhecimento sobre inovação em bibliotecas na Europa, analisando 38 estudos de caso e recolhendo informação de mais de 1 200 bibliotecas públicas e académicas.

Os investigadores identificaram três grandes tendências:

  • transformação digital;
  • experimentação comunitária;
  • empreendedorismo social.

Bibliotecas que ajudam a resolver problemas da comunidade

Em vários países europeus já existem bibliotecas que organizam:

  • Repair Cafés;
  • laboratórios vivos (Living Labs);
  • projetos de ciência cidadã;
  • oficinas de reparação;
  • programas de inclusão digital;
  • atividades intergeracionais;
  • espaços de experimentação tecnológica.

Mais do que disponibilizar informação, tornam-se plataformas onde cidadãos, associações, investigadores e autarquias colaboram para encontrar soluções para desafios locais.

Um exemplo português: Almada empresta máquinas de costura

Portugal também começa a acompanhar esta transformação.

Desde novembro de 2025, a Biblioteca Municipal de Almada disponibiliza máquinas de costura para empréstimo gratuito.

A iniciativa integra o projeto europeu GLA-MOUR e pretende incentivar práticas sustentáveis e de economia circular.

Qualquer pessoa com cartão de leitor pode requisitar gratuitamente uma máquina durante uma semana, permitindo:

  • aprender a costurar;
  • reparar roupa;
  • reutilizar tecidos;
  • prolongar a vida útil das peças de vestuário.

É um excelente exemplo de como uma biblioteca pode disponibilizar não apenas livros, mas também ferramentas que ajudam a reduzir o desperdício e promovem competências úteis para o dia a dia.

Uma tendência que não é nova

Embora hoje esta transformação esteja a ganhar força através de projetos europeus, alguns países nórdicos começaram este caminho há vários anos.

Um dos exemplos mais conhecidos é a biblioteca DOKK1, em Aarhus (Dinamarca), considerada uma das bibliotecas públicas mais inovadoras da Europa.

Além dos livros, disponibiliza espaços de estudo, impressão 3D, ateliers de costura, áreas para famílias, serviços administrativos e inúmeras atividades comunitárias, funcionando como um verdadeiro centro cívico aberto a todos.

Na Dinamarca, a biblioteca é vista como um serviço essencial para promover aprendizagem ao longo da vida, inovação e participação cidadã.

Muito mais do que livros

Apesar de todas estas mudanças, a missão das bibliotecas continua a ser a mesma: partilhar conhecimento.

O que muda é a forma como esse conhecimento é construído.

As bibliotecas deixam de ser apenas locais onde se consulta informação e passam a ser espaços onde as pessoas aprendem em conjunto, criam soluções para problemas comuns, desenvolvem novas competências e fortalecem os laços da comunidade.

Num mundo cada vez mais digital, estes espaços físicos podem desempenhar um papel fundamental na inclusão social, na sustentabilidade, na economia circular e até no fortalecimento da democracia.

Porque talvez a biblioteca do futuro não seja apenas o lugar onde vamos buscar um livro – mas o lugar onde aprendemos, colaboramos e construímos comunidades.

 

E se as bibliotecas municipais portuguesas começassem a emprestar também ferramentas, equipamentos de jardinagem, instrumentos de medição ambiental ou kits de ciência cidadã? Com a sua presença em praticamente todos os concelhos, as bibliotecas têm condições únicas para se tornarem centros locais de sustentabilidade, inovação e participação cidadã.

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Última atualização: 30 Julho 2026