Fios de fibra ótica usados para controlar drones estão a acumular-se nas florestas da região de Kharkiv, criando um novo problema ambiental num território já profundamente afetado pela guerra.

Imagens divulgadas pela 57.ª Brigada de Infantaria Motorizada da Ucrânia mostram uma paisagem invulgar e inquietante nas florestas da comunidade de Vovchansk, na região de Kharkiv: árvores e vegetação cobertas por milhares de quilómetros de finos cabos de fibra ótica deixados por drones russos.

Os cabos, que podem ser difíceis de ver entre os ramos e a vegetação, ficam espalhados pelo território à medida que os drones avançam durante as operações. Segundo a brigada, formam uma espécie de “teia” quase invisível que atravessa as florestas.

O problema não é apenas visual. Estes resíduos estão a transformar-se numa nova forma de poluição associada à guerra, com consequências que podem prolongar-se muito para além dos combates.

Porque é que os drones deixam quilómetros de cabo para trás?

Os drones de fibra ótica são uma tecnologia que tem vindo a ganhar importância na guerra na Ucrânia.

Ao contrário dos drones que comunicam através de sinais de rádio, estes aparelhos estão ligados ao operador por um cabo de fibra ótica. À medida que o drone se desloca, o cabo vai sendo desenrolado atrás dele.

Uma das principais vantagens militares desta tecnologia é precisamente o facto de a ligação não depender de ondas de rádio e, por isso, não poder ser interrompida através dos métodos convencionais de interferência eletrónica (jamming).

Mas aquilo que constitui uma vantagem no campo de batalha transforma-se num problema quando o cabo fica abandonado no território.

Em campos e florestas, centenas ou milhares de linhas podem permanecer espalhadas pelo solo e presas à vegetação.

Uma nova ameaça para a vida selvagem

Segundo as informações divulgadas pelas fontes ucranianas, os cabos podem representar um perigo particularmente sério para os animais.

Por serem finos e pouco visíveis, podem funcionar como armadilhas para a fauna, fazendo com que animais fiquem presos ou enredados nas fibras. Os casos descritos incluem animais que podem morrer por estrangulamento ou por não conseguirem libertar-se e alimentar-se.

A vegetação também pode ficar afetada quando os cabos ficam presos nos ramos e atravessam diferentes zonas da floresta.

Há ainda um comportamento curioso observado em algumas zonas: aves já foram vistas a utilizar pedaços destes cabos na construção dos seus ninhos.

O que parece à primeira vista uma adaptação engenhosa acaba por introduzir um material artificial num ecossistema onde ele não deveria existir.

Um problema que pode durar décadas

Um dos aspetos mais preocupantes é a persistência destes resíduos.

Segundo cientistas ucranianos citados pela Ukrainska Pravda, os cabos de fibra ótica não se degradam facilmente e podem permanecer no ambiente durante décadas.

Isso significa que o problema não desaparece necessariamente quando os combates terminam.

Em zonas onde a quantidade de cabos é muito elevada, a sua remoção também pode ser extremamente difícil. Estamos a falar de territórios onde continuam a existir riscos associados à guerra, incluindo minas e outros resíduos militares, o que torna qualquer operação de limpeza particularmente complexa.

A poluição causada pelos combates pode, assim, permanecer na paisagem muito depois de a atenção pública se afastar dessas áreas.

Quando a tecnologia militar se transforma em lixo ambiental

A situação em Kharkiv mostra uma dimensão pouco conhecida da guerra moderna: os resíduos produzidos pelas novas tecnologias militares podem ter características completamente diferentes dos resíduos das guerras do passado.

Não são apenas munições, metal, combustível ou equipamentos destruídos.

São também componentes eletrónicos, baterias, materiais compósitos e, neste caso, quilómetros de fibra ótica espalhados pelos ecossistemas.

A própria 57.ª Brigada classificou o fenómeno como um problema ambiental grave e afirmou que as suas consequências poderão ser sentidas durante anos.

A expressão utilizada pelos militares ucranianos foi particularmente forte: “ecocídio”.

Independentemente da utilização política ou jurídica deste termo, as imagens mostram algo que merece atenção: uma tecnologia criada para tornar os drones mais resistentes à guerra eletrónica está agora a deixar uma espécie de rede artificial permanente sobre a paisagem.

A guerra também deixa marcas nos ecossistemas

A Ucrânia já enfrenta uma enorme diversidade de impactos ambientais provocados pela guerra: destruição de habitats, incêndios, contaminação de solos e águas, danos em áreas protegidas e acumulação de resíduos militares.

Os cabos de fibra ótica são apenas um exemplo mais recente – mas têm uma característica particular: podem ser difíceis de detetar e permanecer no ambiente durante muito tempo.

As florestas de Vovchansk lembram-nos, assim, que os impactos de um conflito não terminam necessariamente quando uma explosão deixa de se ouvir.

Podem continuar pendurados nas árvores.

Podem permanecer no solo.

E podem continuar a afetar os animais e os ecossistemas durante muitos anos.

A guerra deixa uma paisagem para reconstruir – mas também uma natureza para recuperar.

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Ambiente, Guerra,

Última atualização: 19 Agosto 2026