As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.
Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.
Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.
Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?
Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.
Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.
Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
- sombra natural ou artificial;
- vegetação;
- água potável;
- zonas de descanso;
- instalações sanitárias;
- boa ventilação ou climatização;
- acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
- informação sobre proteção durante ondas de calor.
O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.
Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.
Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.
Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.
A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.
Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.
A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.
Lisboa também começa a dar passos
Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.
Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.
Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
- intensidade da ilha de calor urbana;
- densidade populacional;
- distância a parques e jardins;
- existência de árvores;
- proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.
Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.
Algumas das medidas mais eficazes incluem:
- plantar mais árvores nas ruas;
- criar corredores verdes;
- instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
- substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
- aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
- reduzir áreas asfaltadas;
- criar microflorestas urbanas;
- instalar bebedouros públicos;
- preservar corredores naturais de ventilação;
- diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.
Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.
Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.
Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.
A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.
Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.
Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.
Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.
10 ideias que qualquer município pode implementar já para enfrentar o calor extremo
As ondas de calor vieram para ficar. Mas adaptar uma cidade não significa apenas instalar aparelhos de ar condicionado. Existem inúmeras soluções de baixo custo que podem ser implementadas de forma gradual, tornando os espaços públicos mais confortáveis, saudáveis e resilientes.
1. Criar uma rede de refúgios climáticos
O primeiro passo é identificar edifícios públicos e privados que possam funcionar como locais de abrigo durante episódios de calor extremo.
Bibliotecas, museus, centros culturais, pavilhões desportivos, igrejas, juntas de freguesia, centros comerciais ou hotéis podem integrar uma rede acessível à população, oferecendo sombra, água, lugares para descansar e conforto térmico.
O mais importante é que estes locais estejam claramente identificados e sejam gratuitos.
2. Plantar mais árvores onde elas fazem realmente falta
Nem todas as árvores têm o mesmo impacto.
O ideal é priorizar ruas, praças, escolas, parques infantis, paragens de autocarro e zonas com elevada circulação pedonal, especialmente onde hoje predominam o betão e o asfalto.
Uma árvore madura pode reduzir significativamente a temperatura sentida através da sombra e da evapotranspiração.
Mais do que quantidade, importa escolher as espécies adequadas e plantá-las nos locais certos.
3. Criar pequenas ilhas de sombra
Nem sempre é possível plantar árvores de imediato.
Enquanto estas crescem, podem ser instaladas soluções simples como:
- toldos;
- velas de sombreamento;
- pérgulas;
- estruturas temporárias;
- coberturas verdes.
Barcelona e Lisboa já testaram várias destas soluções em ruas e praças com excelentes resultados.
4. Transformar praças em espaços de permanência
Muitas praças portuguesas continuam a ser enormes superfícies de pedra ou betão onde praticamente não existe sombra.
Basta acrescentar alguns elementos para transformar completamente estes espaços:
- bancos;
- árvores;
- bebedouros;
- pequenos jardins;
- nebulizadores de água;
- zonas de descanso.
Uma praça deixa de ser apenas um espaço de passagem e passa a ser um verdadeiro refúgio urbano.
5. Instalar mais bebedouros públicos
A hidratação é uma das medidas mais importantes durante uma onda de calor.
No entanto, muitas cidades continuam a ter poucos pontos de água potável.
Instalar bebedouros em parques, centros históricos, ciclovias, praias e percursos turísticos é uma intervenção simples, económica e com enormes benefícios para residentes e visitantes.
6. Criar mapas digitais de conforto térmico
Saber onde existe sombra pode ser tão importante como saber onde existe um hospital.
Os municípios podem disponibilizar mapas interativos com:
- refúgios climáticos;
- fontes de água;
- parques;
- zonas arborizadas;
- piscinas;
- edifícios climatizados;
- percursos com maior sombra.
Com geolocalização, qualquer pessoa pode encontrar rapidamente o local mais próximo para recuperar do calor.
7. Apostar em soluções baseadas na natureza
As chamadas Nature-Based Solutions são uma das estratégias mais eficazes para reduzir o calor urbano.
Alguns exemplos incluem:
- jardins de chuva;
- corredores verdes;
- microflorestas urbanas;
- telhados verdes;
- paredes verdes;
- recuperação de linhas de água;
- aumento das áreas permeáveis.
Estas soluções ajudam simultaneamente a reduzir a temperatura, aumentar a biodiversidade, melhorar a qualidade do ar e diminuir o risco de cheias.
8. Pensar nas pessoas mais vulneráveis
As ondas de calor não afetam todos da mesma forma.
Os municípios podem criar planos específicos para proteger:
- idosos;
- crianças;
- pessoas sem-abrigo;
- pessoas com mobilidade reduzida;
- trabalhadores ao ar livre.
Campanhas de sensibilização, visitas domiciliárias, transporte para refúgios climáticos e linhas telefónicas de apoio podem salvar vidas durante os dias mais extremos.
9. Integrar o conforto térmico no planeamento urbano
Cada nova rua, praça ou edifício deveria ser pensado também do ponto de vista climático.
Algumas perguntas simples podem fazer toda a diferença:
- Existe sombra suficiente?
- O pavimento absorve demasiado calor?
- Há árvores?
- Existe ventilação natural?
- Existem locais para descansar?
- Há acesso a água?
Planear hoje significa evitar problemas durante as próximas décadas.
10. Envolver a comunidade na criação das soluções
Nenhum município conhece melhor um bairro do que quem lá vive.
Os moradores sabem quais são:
- as ruas onde é impossível caminhar ao meio-dia;
- as praças sem sombra;
- as paragens de autocarro mais desconfortáveis;
- os espaços abandonados que poderiam transformar-se em pequenos oásis urbanos.
Envolver cidadãos, escolas, associações e comerciantes permite identificar prioridades e encontrar soluções criativas, muitas vezes de baixo custo, que respondem às necessidades reais da população. Como vários especialistas defendem, os refúgios climáticos não devem ser apenas infraestruturas, mas também espaços de encontro, convivência e bem-estar construídos com a participação da comunidade.
O futuro das cidades passa pela adaptação
As cidades que começarem hoje a investir em árvores, sombra, água, espaços verdes e refúgios climáticos estarão mais preparadas para proteger a saúde dos seus habitantes e visitantes nas próximas décadas.