Nos Estados Unidos, bibliotecas públicas estão a criar “bibliotecas de sementes”, onde as pessoas podem levar sementes gratuitamente, cultivá-las e, em alguns casos, devolver parte das sementes obtidas no final da época. A ideia transforma a biblioteca num espaço de aprendizagem, partilha e conservação da biodiversidade.
E se, em vez de levar apenas livros para casa, pudesse levar sementes?
Imagine entrar na biblioteca da sua cidade, procurar entre as estantes e, além de livros, encontrar pequenas embalagens de sementes de tomates, feijões, pimentos, ervas aromáticas ou flores.
Não precisa de pagar. Em alguns destes projetos, basta ter um cartão da biblioteca ou simplesmente fazer um registo. Leva as sementes para casa, cultiva-as e, no final da época, é convidado a guardar algumas das sementes produzidas para que possam ser utilizadas por outra pessoa no ano seguinte.
É assim que funcionam as chamadas seed libraries, ou bibliotecas de sementes, que se multiplicaram sobretudo nos Estados Unidos.
A ideia parece simples. Mas por detrás de uma pequena gaveta cheia de envelopes de sementes existe uma proposta bastante maior: transformar uma biblioteca num espaço de acesso não apenas ao conhecimento, mas também a recursos que permitem às pessoas produzir, aprender e partilhar.
Uma biblioteca onde os “livros” também podem ser plantados
Uma das características mais interessantes é a própria lógica de empréstimo.
A biblioteca disponibiliza sementes gratuitamente. A pessoa leva-as, planta-as e, quando as plantas produzem sementes, pode guardar uma parte para devolver à biblioteca. Essas sementes podem depois chegar a outro membro da comunidade.
Não se trata, portanto, de uma devolução convencional, como acontece com um livro.
A pessoa devolve aquilo que conseguiu multiplicar.
E nem sempre existe uma obrigação rígida de o fazer. As bibliotecas adotam sistemas diferentes: algumas utilizam cartões ou registos, outras códigos de barras e outras funcionam essencialmente através de um sistema de confiança. Nenhuma cobra multas por sementes não devolvidas.
Em alguns casos, os próprios envelopes de devolução incluem espaço para indicar a variedade, o local e a data em que as sementes foram recolhidas, bem como observações sobre o cultivo. Assim, a biblioteca acaba por guardar não apenas sementes, mas também conhecimento produzido pelos próprios habitantes.
É uma espécie de biblioteca viva.
De onde veio a ideia?
Embora a partilha de sementes entre comunidades seja muito anterior às bibliotecas modernas, o movimento contemporâneo das seed libraries começou a ganhar forma nos Estados Unidos no final do século XX.
A Bay Area Seed Interchange Library (BASIL), criada em 1999 no Berkeley Ecology Center, na Califórnia, terá sido a primeira biblioteca de sementes contemporânea. Em 2004, surgiu aquela que é identificada como a primeira biblioteca de sementes instalada numa biblioteca pública, na Gardiner Public Library, em Nova Iorque.
Em 2018, já havia mais de 450 bibliotecas de sementes em todo o mundo, a maioria nos Estados Unidos.
Entretanto, a ideia continuou a espalhar-se.
Um dos impulsos importantes veio também da Richmond Grows Seed Lending Library, na Califórnia. O modelo acabou por inspirar outras bibliotecas a criar as suas próprias coleções e programas educativos.
Não é apenas sobre sementes
À primeira vista, uma biblioteca de sementes pode parecer apenas uma forma original de incentivar as pessoas a cultivar uma horta.
Mas os objetivos identificados pelas bibliotecas são bastante mais amplos.
Entre eles estão:
- promover a biodiversidade;
- facilitar o acesso a sementes;
- incentivar a produção local de alimentos;
- preservar variedades adaptadas às condições locais;
- desenvolver conhecimentos sobre jardinagem e conservação de sementes;
- aproximar as pessoas da natureza;
- fortalecer relações entre vizinhos;
- apoiar a segurança e a resiliência alimentar;
- preservar conhecimento e património agrícola.
E há aqui uma dimensão particularmente interessante: a biblioteca torna-se um ponto de encontro entre pessoas que provavelmente já tinham conhecimentos diferentes, mas que nem sempre tinham um espaço para os partilhar.
Algumas bibliotecas organizam workshops sobre jardinagem e conservação de sementes, enquanto outras estabelecem parcerias com associações de horticultura, agricultores, clubes de jardinagem ou especialistas locais.
A biblioteca deixa de ser apenas um lugar onde se encontra informação.
Passa também a ser um lugar onde se produz e transmite conhecimento.
Sementes adaptadas ao território
Esta é talvez uma das partes mais interessantes do conceito.
Uma semente não cresce da mesma forma em todo o lado. Clima, solo, água, temperatura, pragas e duração da época de cultivo influenciam os resultados.
Por isso, uma variedade que se adapta particularmente bem a determinada região pode ter um valor que vai muito além do seu preço comercial.
Ao longo das gerações, guardar sementes das plantas que melhor se desenvolvem num determinado território pode contribuir para manter variedades adaptadas às suas condições.
As bibliotecas de sementes podem reforçar uma lógica de partilha e colaboração entre os membros da comunidade, contribuindo para preservar e trocar variedades adequadas às condições locais, desenvolver coleções de sementes localmente relevantes e resilientes e manter vivo o conhecimento associado ao seu cultivo.
Uma pequena biblioteca pode contribuir para manter uma pequena reserva viva de diversidade dentro da própria comunidade.
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