De Génova a Paris, várias cidades estão a descobrir que combater o calor urbano pode passar por uma ideia aparentemente contraintuitiva: retirar asfalto e betão e devolver espaço ao solo, à água e à vegetação. Mas há uma lição importante: não basta plantar árvores. É preciso reaprender a desenhar a cidade.

Todos os verões parecem trazer um novo teste às cidades europeias. As ondas de calor são mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, e os espaços urbanos podem tornar-se particularmente difíceis de suportar.

Asfalto, betão e outras superfícies impermeáveis absorvem e acumulam calor durante o dia, libertando-o lentamente depois. Ao mesmo tempo, impedem a infiltração da água da chuva e contribuem para o escoamento superficial, aumentando a pressão sobre os sistemas de drenagem durante episódios de precipitação intensa.

Perante este cenário, uma ideia que durante muito tempo pareceu quase estranha está a ganhar espaço no planeamento urbano:

e se, em vez de continuarmos a acrescentar coisas à cidade, começássemos a retirar algumas?

É isso que está por detrás do chamado depaving, ou desimpermeabilização urbana: remover asfalto, betão ou outras superfícies impermeáveis e devolver ao solo a possibilidade de desempenhar novamente algumas das suas funções naturais.

E algumas cidades italianas estão a levar esta ideia bastante a sério.

Génova quer transformar o depaving numa regra de planeamento

Em março de 2026, Génova deu um passo particularmente interessante.

A cidade aprovou uma deliberação que propõe integrar explicitamente a desimpermeabilização no seu Plano Urbanístico Municipal (PUC), deixando de tratar estas intervenções apenas como projetos isolados. O solo passa a ser reconhecido como uma infraestrutura ecossistémica e o verde urbano como uma infraestrutura ambiental, climática e social.

A lógica é simples, mas representa uma mudança importante na forma de pensar a cidade.

Em vez de considerar o solo apenas como aquilo que está “por baixo” da cidade, passa-se a considerá-lo como parte da infraestrutura que permite à cidade funcionar.

O município pretende também associar intervenções de desimpermeabilização a incentivos urbanísticos e económicos. Entre as medidas previstas está, por exemplo, a possibilidade de obter uma redução de 10% no contributo de construção em determinadas intervenções de melhoria ambiental que incluam desimpermeabilização, jardins de chuva ou espaços verdes de proximidade.

A cidade pretende ainda desenvolver estas intervenções através de processos participativos com a população, integrando-as na estratégia da chamada cidade dos 15 minutos.

Ou seja, o objetivo não é simplesmente:

“vamos tirar algum asfalto e plantar árvores.”

É começar a perguntar:

“Onde é que a cidade precisa realmente do solo de volta?”

O que acontece quando retiramos o asfalto?

À primeira vista, remover uma superfície impermeável pode parecer uma intervenção meramente estética.

Não é.

Quando uma área asfaltada é substituída por solo permeável e vegetação, podem acontecer várias coisas ao mesmo tempo.

Menos calor

Superfícies como o asfalto e o betão absorvem uma grande quantidade de radiação solar e libertam esse calor posteriormente, contribuindo para o fenómeno conhecido como ilha de calor urbana.

A vegetação introduz sombra e evapotranspiração, enquanto o solo e a água funcionam de forma diferente das superfícies impermeáveis na forma como absorvem e transferem calor.

O resultado pode ser uma redução significativa das temperaturas locais – embora o efeito dependa muito da dimensão da intervenção, do desenho urbano, da vegetação, da água disponível e das características do local.

É precisamente esta relação entre vegetação, solo e temperatura que o projeto italiano MIRIFICUS tem procurado estudar.

O projeto utiliza imagens de satélite de diferentes missões, incluindo Landsat e Sentinel, para analisar temperaturas de superfície, vegetação, consumo de solo e outras características urbanas. Em Roma e Florença, foram também desenvolvidas simulações para avaliar o efeito de intervenções de reflorestação urbana.

Mais recentemente, o projeto disponibilizou ferramentas de apoio às administrações públicas para ajudar a planear intervenções de mitigação das ilhas de calor.

A ideia é importante: antes de decidir onde plantar, podemos descobrir onde o calor está realmente concentrado.

Menos água a correr pela cidade

Existe outra vantagem que pode ser ainda mais importante num contexto de fenómenos extremos.

Quando chove sobre uma superfície impermeável, a água não consegue infiltrar-se no solo.

Corre.

Vai para a estrada, para os passeios, para as sarjetas e, finalmente, para os sistemas de drenagem.

Quando uma área é desimpermeabilizada, parte dessa água pode voltar a infiltrar-se no solo.

É por isso que estas intervenções podem fazer parte daquilo que hoje se designa frequentemente por cidade-esponja: uma cidade capaz de absorver, armazenar e libertar a água de forma mais próxima dos processos naturais.

Um jardim de chuva, uma área verde, uma vala vegetada ou um pavimento permeável podem, por isso, desempenhar simultaneamente uma função paisagística e uma função hidráulica.

A cidade deixa de tentar expulsar a água o mais rapidamente possível.

Começa a aprender a ficar com alguma dela.

Deixar de pensar apenas em “mais verde”

É aqui que o conceito de depaving se torna particularmente interessante.

Durante muito tempo, muitas políticas urbanas de sustentabilidade foram apresentadas através de números fáceis de comunicar:

mais árvores.

mais metros quadrados de espaços verdes.

mais parques.

Mas uma cidade pode plantar árvores e continuar a ser extremamente hostil ao calor.

Pode ter vasos cheios de plantas num espaço onde as pessoas continuam sem conseguir sentar-se porque os bancos estão demasiado quentes.

Pode ter árvores novas que não sobrevivem ao verão.

Pode criar um jardim que exige tanta água e manutenção que se torna difícil de sustentar.

Pode plantar uma árvore num pequeno quadrado de solo completamente rodeado de betão, deixando-lhe pouco espaço para desenvolver raízes.

É precisamente aqui que entra uma das lições mais importantes das intervenções urbanas recentes:

não basta colocar natureza na cidade. É preciso criar condições para que a natureza consiga funcionar.

Roma mostra que boas intenções não chegam

Um exemplo particularmente revelador surgiu este verão em Roma.

A Piazza Risorgimento foi renovada no contexto das intervenções associadas ao Jubileu. O projeto incluiu mais vegetação, árvores, fontes, lugares para sentar e a remoção de parte do pavimento. O investimento global foi de milhões de euros.

Mas, durante o intenso calor do verão de 2026, várias árvores morreram, algumas plantas secaram e alguns dos bancos ficaram demasiado quentes para serem utilizados.

A cidade reconheceu que seria necessário substituir árvores e melhorar o sistema de rega, admitindo também que algumas das espécies escolhidas não foram as mais adequadas às condições que se verificaram.

O responsável pelo clima da cidade resumiu uma das dificuldades fundamentais: é preciso pensar em quem está na cidade durante as horas mais quentes – incluindo crianças, idosos, residentes e visitantes.

A lição de Roma é tão importante como a de Génova.

Adaptar uma cidade ao calor é um processo de aprendizagem.

Não existe uma receita universal.

O contexto muda tudo

Uma árvore que funciona num determinado local pode não ser a melhor escolha noutro.

Um pavimento permeável pode funcionar muito bem numa rua e ser inadequado noutra.

Uma praça pode precisar de árvores; outra pode precisar de sombra combinada com água; outra pode beneficiar sobretudo da remoção de uma área excessivamente pavimentada.

E retirar asfalto também não significa simplesmente levantar a camada superficial e deixar o que está por baixo.

Décadas de impermeabilização e compactação podem alterar profundamente o solo. Para que uma área volte realmente a desempenhar funções ecológicas, é necessário avaliar aquilo que existe por baixo da superfície e reconstruir, quando necessário, condições adequadas para infiltração, vegetação e vida do solo.

Por isso, desimpermeabilizar não é simplesmente demolir. É redesenhar.

A Itália está a experimentar várias soluções

Génova não está sozinha.

Em Milão, a desimpermeabilização foi integrada no Plano de Ação Climática e a cidade tem desenvolvido intervenções de transformação de superfícies impermeáveis em espaços verdes.

Bolonha lançou o programa Bologna Verde, que inclui a remoção de grandes áreas de betão e asfalto.

Em Roma existem intervenções de desimpermeabilização associadas à criação de novas áreas verdes.

Em Florença, algumas intervenções incidem sobre espaços escolares e jardins.

E outras cidades italianas estão a experimentar soluções semelhantes.

O mais interessante, porém, é que a ideia não nasceu agora.

Tudo começou, em parte, com pessoas a partir asfalto à mão

Uma das histórias mais interessantes associadas ao movimento de depaving vem de Portland, nos Estados Unidos.

Em 2007, Arif Khan encontrou um jardim completamente coberto por asfalto. Em vez de aceitar aquela situação como inevitável, começou a removê-lo manualmente com um amigo para transformar o espaço numa horta.

A experiência acabou por dar origem, em 2008, à organização Depave, criada por voluntários com uma ideia muito simples:

remover o asfalto para deixar o solo respirar.

Desde então, o movimento espalhou-se e inspirou grupos e projetos em diferentes cidades.

Na Europa surgiram entretanto iniciativas semelhantes.

Nos Países Baixos, por exemplo, a competição Tegelwippen desafia municípios e cidadãos a retirar pavimentos e substituí-los por vegetação.

A ideia é quase provocatória:

qual é a cidade que consegue retirar mais pedras?

E talvez seja precisamente essa provocação que torna o conceito tão interessante.

Estamos habituados a medir o progresso pela quantidade de coisas que construímos.

E se começássemos também a medi-lo pelo que conseguimos deixar de construir?

Uma cidade pode ser mais moderna retirando coisas

Há uma certa ironia no conceito.

Durante décadas, associámos modernização a pavimentar, canalizar, construir e impermeabilizar.

A terra era vista como algo que precisava de ser coberto para tornar o espaço “civilizado”.

Hoje estamos a descobrir que algumas dessas superfícies que considerámos progresso podem estar a tornar as cidades mais vulneráveis.

Por isso, a inovação urbana pode assumir uma forma inesperada:

retirar.

Retirar um estacionamento que ocupa uma área excessiva.

Retirar betão de um recreio escolar.

Retirar pavimento de uma praça.

Retirar uma faixa de asfalto onde ela deixou de ser necessária.

Retirar superfícies impermeáveis junto às árvores.

Retirar barreiras que impedem a água de entrar no solo.

E devolver esses espaços a outras funções.

E se começássemos pelas escolas?

Talvez um dos lugares mais interessantes para experimentar esta transformação sejam precisamente os pátios escolares.

São frequentemente grandes superfícies impermeabilizadas, utilizadas sobretudo durante alguns períodos do dia, mas que podem tornar-se extremamente quentes no verão.

Génova aderiu em 2026 ao projeto Biofear, desenvolvido por investigadores do CNR-IRSA e várias universidades italianas, que procura promover intervenções de depaving em espaços de jogo e pátios escolares. O projeto pretende não apenas aumentar a presença de natureza nestes espaços, mas também aproximar as crianças do mundo natural.

E aqui aparece uma possibilidade particularmente interessante.

E se as próprias crianças pudessem participar na transformação?

Podiam medir a temperatura do recreio.

Mapear os locais onde existe sombra.

Observar por onde corre a água quando chove.

Identificar as áreas mais utilizadas.

Descobrir quais as plantas que poderiam sobreviver naquele contexto.

Desenhar propostas.

Testar pequenas soluções.

E depois acompanhar os resultados.

Nesse caso, a cidade deixa de ser apenas o objeto da aula.

A cidade passa a ser a sala de aula.

Não precisamos de transformar tudo

Talvez essa seja outra lição importante.

Não é necessário retirar todo o asfalto de uma cidade.

Nem todas as superfícies precisam de ser verdes.

Nem todos os espaços precisam de árvores.

Uma cidade funcional precisa de ruas, passeios, acessibilidade, transportes, edifícios e superfícies resistentes.

A questão é outra:

onde é que estamos a impermeabilizar mais do que precisamos?

E, sobretudo:

onde é que essa impermeabilização está a criar problemas que poderíamos resolver de outra forma?

Um pequeno espaço de betão junto a uma escola pode transformar-se num jardim.

Um antigo estacionamento pode tornar-se um parque.

Uma praça pode ganhar sombra e solo permeável.

Um canteiro abandonado pode voltar a ter vida.

Uma rua pode incorporar árvores e soluções de drenagem.

São intervenções pequenas quando comparadas com a dimensão de uma cidade.

Mas podem mudar completamente a experiência de um lugar.

A verdadeira inovação pode estar em reaprender a olhar para o que já temos

O depaving não é apenas uma técnica de adaptação climática.

É também uma mudança de mentalidade.

Em vez de perguntar:

“O que podemos construir aqui?”

podemos começar a perguntar:

“O que podemos retirar?”

Em vez de:

“Onde conseguimos acrescentar mais verde?”

podemos perguntar:

“Onde é que o solo está a ser impedido de funcionar?”

E em vez de:

“Como tornamos esta praça mais bonita?”

podemos perguntar:

“Como fazemos com que esta praça continue habitável quando estiverem 40 ºC?”

Talvez a cidade do futuro não seja aquela onde conseguimos colocar mais tecnologia, mais estruturas e mais equipamentos.

Talvez seja aquela que consegue funcionar melhor com menos coisas.

Menos asfalto onde ele não é necessário.

Menos superfícies impermeáveis.

Menos calor acumulado.

Menos água perdida pelo escoamento.

Mais solo.

Mais sombra.

Mais água infiltrada.

Mais biodiversidade.

E, sobretudo, mais capacidade de adaptação ao lugar e às pessoas que o habitam.

Porque uma cidade verdadeiramente preparada para o futuro não é uma cidade que simplesmente resiste ao clima que vem.

É uma cidade que aprende a mudar.

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Última atualização: 17 Agosto 2026