O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.
Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.
É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado techno-libertarianismo.
Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.
Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.
Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.
Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.
E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.
Não se trata de acontecimentos isolados.
Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.
Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.
A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.
Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.
Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.
O investimento acabaria por valer milhares de milhões.
Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.
A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.
Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.
Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.
A época e o lugar são importantes.
Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.
Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.
O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.
O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.
África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.
Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.
Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.
Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.
Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.
Uma biografia de Thiel publicada em 2021, The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.
O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.
A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.
Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.
O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir
Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.
A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.
O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.
A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.
É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.
A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.
A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.
O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.
Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.
E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.
Em 2026, essa visão tornou-se particularmente evidente com a publicação de The Technological Republic, o livro de Karp.
O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”
Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.
A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.
E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.
Num manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.
A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.
Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.
A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.
Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.
Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.
Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.
Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.
O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.
E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.
A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.
É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.
Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância
A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.
Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.
Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?
Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.
O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.
Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.
A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.
A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.
A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.
A Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.
A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.
Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.
É associado ao libertarianismo tecnológico (“techno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.
Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”
Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.
Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.
Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel
Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.
Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.
Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.
E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.
Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto.
Uma experiência radical de governação
Os defensores de Próspera apresentam-na como uma experiência de inovação.
Menos burocracia. Impostos baixos. Regulação mais simples. Arbitragem privada. Tecnologia. Criptomoedas. Empresas inovadoras.
A promessa é que um ambiente com menos obstáculos estatais pode produzir crescimento económico e inovação muito mais rapidamente do que um Estado tradicional.
Mas existe uma pergunta inevitável: quem governa uma cidade quando as regras são desenhadas em grande parte para investidores e residentes que escolheram aquele sistema?
Os críticos dizem que Próspera representa uma forma de privatização da soberania. Em vez de convencer milhões de cidadãos a votar num novo modelo político, cria-se um território onde as pessoas podem simplesmente escolher viver sob novas regras. É uma espécie de “democracia por saída”: não gosta do sistema? Pode sair. O problema é que nem toda a população pode fazê-lo.
Honduras tentou acabar com o modelo
Em 2022, o Congresso hondurenho revogou o enquadramento legal das ZEDE. Em 2024, a Suprema Corte das Honduras declarou o regime inconstitucional.
Próspera, contudo, não desapareceu. Os seus responsáveis defendem que as garantias jurídicas existentes continuam a protegê-la e levaram o Estado hondurenho a arbitragem internacional.
O processo está no ICSID, o Centro Internacional para a Resolução de Diferendos relativos a Investimentos, ligado ao Banco Mundial. Quando o processo foi iniciado, Próspera estimou perdas potenciais de até 10,775 mil milhões de dólares. Entretanto, a empresa reduziu significativamente o valor da compensação que está atualmente a reclamar, para cerca de 1,63 mil milhões de dólares, enquanto continua a defender como solução preferencial a restituição dos direitos previstos no regime das ZEDE.
Isto transformou Próspera numa das maiores disputas de soberania e investimento da América Latina.
E depois aconteceu a Argentina
Se Próspera é um laboratório numa ilha das Caraíbas, a Argentina é algo completamente diferente. É um país inteiro.
Em 2026, Peter Thiel começou a passar longos períodos em Buenos Aires.
A aproximação a Javier Milei não começou agora. Os dois já se tinham encontrado em 2024 e descobriram rapidamente uma afinidade ideológica. Milei descreveu Thiel como um anarcocapitalista, alguém cuja visão encontra na Argentina uma oportunidade de ser colocada em prática.
Em abril de 2026, Thiel voltou à Casa Rosada. A Presidência argentina confirmou oficialmente a reunião com Milei, com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros Pablo Quirno, Matt Danzeisen e Matias Van Thienen, da Founders Fund.
Mas desta vez não se tratava apenas de uma visita. Thiel levou a família. Comprou uma propriedade em Buenos Aires avaliada em cerca de 12 a 13,5 milhões de dólares, dependendo da estimativa publicada, e matriculou os filhos numa escola privada argentina.
Passou também a aparecer em situações inesperadas para um dos homens mais ricos e reservados do mundo. Por exemplo, num clube de xadrez de Buenos Aires.
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Está Thiel a “fugir” dos Estados Unidos?
Esta é uma das perguntas que começaram a aparecer nos meios de comunicação.
Thiel não anunciou que está a abandonar definitivamente os Estados Unidos. A mudança para a Argentina foi descrita como temporária, embora tenha adquirido características bastante mais permanentes do que uma simples estada.
A explicação mais plausível é ideológica e económica. Thiel vê na Argentina de Milei uma experiência política particularmente próxima das suas ideias: desregulação, redução do Estado, privatização, abertura económica e uma forte crítica às instituições tradicionais.
Ao mesmo tempo, há uma componente de diversificação geográfica e patrimonial.
E a Argentina oferece algo que Próspera não pode oferecer: um país inteiro a experimentar uma transformação libertária.
Em agosto de 2026 surgiu ainda outro dado interessante: o fundo Thiel Macro revelou uma primeira participação formal numa empresa argentina, equivalente a aproximadamente 1% da Vista Energy. Portanto, a presença de Thiel na Argentina já não é apenas política ou residencial. Está também a tornar-se financeira.
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A ligação entre Thiel, Milei e a Palantir
A Argentina está a desenvolver uma infraestrutura de inteligência e integração de dados cada vez mais ambiciosa. O Governo de Milei criou mecanismos para integrar informação de diferentes organismos do Estado. E a Palantir é precisamente especialista nesse tipo de tecnologia.
Por isso, a aproximação entre Thiel e Milei alimentou especulações sobre uma possível expansão da Palantir na Argentina.
No entanto, uma reunião entre Thiel e Milei não prova a existência de um contrato secreto entre o Governo argentino e a Palantir.
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E chegamos ao Anticristo
Durante 2025, Peter Thiel começou a realizar uma série de conferências privadas intituladas: “The Antichrist: A Four-Part Lecture Series”. Não era uma metáfora. Thiel estava realmente a falar sobre o Anticristo. As conferências eram privadas e tinham regras de confidencialidade.
Gravações que chegaram ao Washington Post permitiram conhecer parte do conteúdo. Segundo o jornal, Thiel argumentava que o Anticristo poderia surgir através de uma figura que prometesse proteger a humanidade de riscos existenciais – guerra nuclear, alterações climáticas ou inteligência artificial – mas acabasse por criar um Estado totalitário mundial.
É uma ideia que acompanha Thiel há décadas. Para ele, o Anticristo está relacionado com a criação de um governo mundial único.
E isso ajuda a compreender uma aparente contradição. Thiel é um defensor radical da inovação tecnológica. Mas também teme o poder que uma estrutura política global poderia adquirir através da tecnologia. Na sua visão, tecnologia e liberdade podem libertar o indivíduo. Mas tecnologia concentrada nas mãos de um Estado mundial poderia fazer exatamente o contrário.
Quem é o Anticristo para Peter Thiel?
Thiel não identifica uma pessoa concreta como sendo o Anticristo. Na sua interpretação, trata-se de uma figura tirânica que poderia chegar ao poder explorando o medo de catástrofes e prometendo proteger a humanidade delas.
Mas há uma inversão particularmente curiosa na sua teoria. Para Thiel, o perigo tecnológico do século XXI pode já não ser o cientista que inventa demasiado, mas a pessoa que quer impedir o avanço da ciência.
Nas suas conferências, descreveu o Anticristo moderno como uma espécie de luddite – alguém que quer parar a ciência – e apontou Greta Thunberg e o investigador de inteligência artificial Eliezer Yudkowsky como exemplos de pessoas que, na sua visão, poderiam funcionar como “legionários do Anticristo”. Não estava a afirmar que Greta Thunberg fosse literalmente o Anticristo.
O argumento era outro: movimentos que procuram travar ou controlar determinadas tecnologias em nome da segurança podem, na visão de Thiel, contribuir para o tipo de concentração de poder que ele associa ao Anticristo.
É uma inversão completa do argumento habitual sobre os riscos tecnológicos. Para muitos críticos da inteligência artificial, o problema é desenvolver tecnologia demasiado depressa e sem controlo. Para Thiel, o perigo pode estar precisamente em utilizar o medo da tecnologia para justificar o seu controlo político.
De São Francisco para Roma
Em 2026, Thiel levou as conferências para a Europa. Em janeiro esteve em Paris. Em março, chegou a Roma para uma nova série de conferências privadas sobre o Anticristo.
A escolha da cidade foi inevitavelmente simbólica. Roma. Vaticano. Cristianismo. E, a poucos quilómetros dali, um dos bilionários mais poderosos do mundo a explicar a sua própria interpretação da ameaça do Anticristo.
A conferência foi fechada à imprensa e o local não foi divulgado.
A presença de Thiel provocou reações de teólogos e comentadores católicos. Um conselheiro do Vaticano para questões relacionadas com inteligência artificial, padre Paolo Benanti, criticou fortemente a sua interpretação teológica.
O New York Times descreveu o ambiente em Roma como uma colisão entre o pensamento tecnológico de Thiel e a tradição teológica católica.
Ou seja: o homem que fez fortuna com tecnologia de vigilância estava agora a discutir o fim dos tempos junto ao Vaticano.
O que René Girard tem a ver com tudo isto?
Para perceber Peter Thiel é preciso conhecer outro nome que, à primeira vista, parece não ter muito a ver com Silicon Valley: René Girard.
Girard foi um filósofo e antropólogo francês que passou grande parte da sua carreira na Universidade de Stanford. Foi precisamente aí que Thiel o conheceu, ainda estudante, e a influência foi tão profunda que Thiel viria a descrevê-lo como uma das pessoas que mais moldaram a sua forma de pensar.
Thiel descobriu Girard através do livro Things Hidden Since the Foundation of the World quando era estudante em Stanford. Décadas depois, continuava a considerá-lo uma referência fundamental. Numa entrevista ao Business Insider, explicou que Girard se distinguia por tentar responder a perguntas enormes sobre a humanidade em vez de se limitar a problemas académicos muito específicos.
O que é que Girard defendia? A ideia central é a chamada teoria mimética. Girard argumentava que os seres humanos não sabem necessariamente, por si próprios, aquilo que desejam. Aprendemos a desejar através da imitação dos outros.
Uma criança quer determinado brinquedo porque vê outra criança a querê-lo. Um adolescente quer entrar numa determinada universidade porque todos os outros consideram aquela universidade desejável. Empresas começam a competir pelo mesmo mercado porque os seus concorrentes estão a fazê-lo. À medida que duas pessoas ou grupos desejam as mesmas coisas, a imitação pode transformar-se em rivalidade. E quanto mais intensa é a rivalidade, mais os adversários passam a concentrar-se uns nos outros. Para Girard, este mecanismo pode acabar por produzir violência. Quando a tensão dentro de um grupo se torna demasiado grande, surge então outro fenómeno: o bode expiatório.
Em vez de todos lutarem contra todos, a comunidade concentra a culpa numa única pessoa ou grupo. O conflito interno é temporariamente canalizado contra esse alvo comum. O grupo reencontra assim uma espécie de unidade.
Esta ideia – a passagem da imitação para a rivalidade, da rivalidade para a violência e da violência para a procura de um culpado – é uma das chaves para compreender Girard.
E onde entra o cristianismo?
Girard passou grande parte da sua obra a estudar os mitos, a violência e o cristianismo. Na sua interpretação, a narrativa cristã introduz uma mudança fundamental: Jesus é apresentado não como culpado, mas como vítima inocente da violência coletiva.
A crucificação, nesta leitura, revela o mecanismo do bode expiatório em vez de o esconder. Para Girard, isto significa que o cristianismo expõe a injustiça existente por trás dos antigos mecanismos de sacrifício e perseguição. As sociedades continuam a procurar bodes expiatórios, mas já não conseguem fazê-lo com a mesma facilidade sem que a sua inocência seja reconhecida.
Thiel levou Girard para Silicon Valley
Thiel aplicou a teoria de Girard a algo aparentemente muito diferente: a competição económica. Para ele, as pessoas e as empresas passam demasiado tempo a imitar os seus concorrentes. Em vez de perguntarem “o que é que ninguém está a fazer?”, perguntam “o que é que os outros estão a fazer e como posso fazê-lo melhor?”. Thiel considera que este comportamento pode produzir mercados saturados, empresas que copiam umas às outras e indivíduos obcecados com os seus rivais.
Numa entrevista, deu um exemplo quase cómico: quando a Square lançou o seu leitor de cartões com uma determinada forma, apareceram concorrentes com leitores semelhantes, mas com formatos diferentes. Para Thiel, era um pequeno exemplo de desejo mimético em funcionamento.
É também uma das razões pelas quais Thiel valoriza tanto a ideia de não seguir a multidão. A sua filosofia empresarial de procurar aquilo que mais ninguém está a fazer – em vez de simplesmente competir num mercado já existente – tem, pelo menos em parte, esta influência girardiana.
Girard não estava apenas interessado em explicar porque é que as pessoas competem. Estava interessado em explicar como sociedades inteiras podem entrar em ciclos de conflito. E é aqui que Girard começa a aproximar-se dos temas que aparecem repetidamente no pensamento de Thiel: violência, guerra, religião, tecnologia, armas nucleares, catástrofe e o risco de uma escalada coletiva. O próprio Thiel estabeleceu essa ligação.
Ao explicar a influência de Girard sobre a sua visão do Apocalipse, argumentou que a destruição descrita no Livro do Apocalipse não precisa de ser entendida como uma punição enviada por um Deus violento. A humanidade já possui armas capazes de produzir uma destruição à escala bíblica. Nesse sentido, podemos provocar o nosso próprio apocalipse.
É uma ideia importante para compreender o Thiel que aparece mais tarde a falar do Anticristo: o perigo não está apenas na tecnologia, mas na forma como seres humanos em conflito utilizam tecnologias cada vez mais poderosas.
E há ainda outra figura que começa a aparecer nesta história: Carl Schmitt, o controverso jurista alemão associado ao pensamento político autoritário do século XX. A partir daqui, a visão de Thiel começa a tornar-se uma mistura bastante invulgar de libertarianismo, cristianismo, Girard, Schmitt, tecnologia e medo do poder político global.
É essa combinação – muito mais do que qualquer uma destas ideias isoladamente – que ajuda a explicar o universo intelectual de Peter Thiel.
E então aparece Dialog
Como se tudo isto não fosse suficientemente peculiar, em junho de 2026 surgiu outra revelação. Uma fuga de informação expôs documentos internos de Dialog, uma organização privada cofundada por Peter Thiel em 2006.
Durante cerca de duas décadas, Dialog manteve uma existência extremamente discreta. Não é propriamente uma “sociedade secreta” no sentido clássico. É mais correto descrevê-la como um clube privado e reservado, de acesso por convite, com encontros realizados sob regras de confidencialidade. Mas a escala e os participantes explicam por que razão ganhou essa reputação.
Uma lista relativa ao encontro de 2026 continha 222 participantes.
Entre eles estavam políticos, militares, investidores, executivos tecnológicos, académicos e outras figuras de enorme influência. A lista incluía, entre outros, altos responsáveis norte-americanos e da NATO e membros do círculo tecnológico associado a Thiel.
O programa era ainda mais curioso. Entre os temas encontravam-se:
- inteligência artificial;
- “Battlefield Technologies”;
- “Bring Back Nuclear”;
- “Navigating WWIII”;
- “Build-a-Cult”;
- política;
- “How’s Your Sex Life?”;
- dinheiro e felicidade.
Tudo isto em encontros off the record.
Uma espécie de Bilderberg tecnológico?
Dialog foi descrita como uma espécie de Bilderberg do mundo tecnológico. A comparação não é perfeita, mas ajuda a perceber o modelo. Não é uma conferência pública onde alguém apresenta uma keynote e depois responde a jornalistas. É uma rede privada onde pessoas muito poderosas podem conversar sem a pressão normal da exposição pública.
E a fuga revelou algo ainda mais interessante. Segundo documentos analisados pelo Wired, Dialog utilizava uma classificação interna dos participantes baseada, entre outros fatores, na riqueza e notoriedade. Os participantes eram classificados e o sistema ajudava a determinar quem deveria conhecer quem, onde se sentariam e quais os contactos considerados mais interessantes. Ou seja, não era apenas uma conferência. Era também uma rede de relações cuidadosamente organizada. E isso é importante para perceber o poder contemporâneo.
Quem aparece nestas reuniões?
A lista inclui uma mistura extraordinária:
- Empresários
- Bilionários
- Militares
- Políticos
- Funcionários governamentais
- Executivos de empresas de dados
- Especialistas em inteligência artificial
- Académicos
- Jornalistas
- Líderes religiosos
- Membros da chamada “PayPal Mafia”.
A presença conjunta de pessoas que normalmente aparecem em mundos separados:
- Tecnologia
- Política
- Defesa
- Finança
- Inteligência
- Religião.
Todos na mesma sala. E isto aproxima-se muito daquilo que Peter Thiel parece procurar em vários dos seus projetos: construir redes entre pessoas que podem alterar o futuro em vez de simplesmente reagir ao futuro que os governos criam.
Uma elite que quer construir o futuro
Talvez seja esta a melhor forma de compreender Peter Thiel. Não apenas como um bilionário. Nem apenas como um empresário tecnológico.
E nem sequer apenas como um político conservador. Thiel pertence a uma geração de investidores tecnológicos que acredita que os indivíduos extraordinariamente capazes devem ter muito mais liberdade para construir novas estruturas sociais.
É uma visão que aparece em vários projetos.
Palantir – Construir a infraestrutura tecnológica capaz de permitir que governos e organizações vejam e compreendam grandes quantidades de informação.
Próspera – Construir uma nova forma de cidade e governação.
Investimentos tecnológicos – Financiar empresas que podem alterar radicalmente sectores económicos.
Dialog – Criar uma rede privada onde pessoas poderosas podem discutir o futuro fora das instituições tradicionais.
Argentina – Aproximar-se de um país que está a tentar aplicar em larga escala uma visão económica libertária.
Anticristo – Pensar filosoficamente sobre o que acontece quando a tecnologia, a política e a procura de segurança conduzem a uma concentração extrema de poder.
Quando colocamos estas peças lado a lado, a história torna-se mais coerente.
A grande contradição de Peter Thiel
Mas existe uma contradição central. Thiel desconfia profundamente do poder do Estado. Ao mesmo tempo, uma das empresas que ajudou a criar tornou-se uma das mais importantes fornecedoras de tecnologia para Estados, forças armadas e serviços de segurança.
Defende a liberdade individual. Mas a Palantir trabalha precisamente com tecnologias capazes de permitir aos governos reunir e analisar enormes quantidades de informação sobre indivíduos.
Critica a concentração de poder. Mas participa em redes privadas onde algumas das pessoas mais poderosas do mundo se reúnem fora da esfera pública.
Teme um Estado mundial totalitário. Mas acredita no poder de tecnologias que tornam os Estados mais capazes de conhecer, prever e controlar acontecimentos.
E esta contradição não é apenas de Thiel. É uma das grandes contradições do nosso tempo.
A questão que a Palantir coloca à Europa
É por isso que a discussão sobre Palantir é maior do que Peter Thiel.
A questão não é: “Devemos gostar ou não de Peter Thiel?”
É: “Quem queremos que controle a infraestrutura tecnológica que permite aos Estados conhecer e analisar as nossas sociedades?”
Porque a tecnologia da Palantir pode ser utilizada para coisas extremamente úteis. Pode ajudar a encontrar ligações entre dados dispersos. Pode ajudar hospitais a gerir recursos. Pode ajudar forças de segurança a investigar redes criminosas. Pode ajudar governos a responder mais rapidamente a crises.
Mas exatamente a mesma capacidade pode tornar a vigilância muito mais poderosa. E quanto mais dados forem integrados, maior é a capacidade de inferir relações que nunca foram explicitamente fornecidas.
É por isso que a discussão europeia sobre soberania digital está a ganhar força.
E talvez a história mais importante seja esta
Há uma tendência para olhar para Peter Thiel como uma personagem excêntrica. O bilionário que fala do Anticristo. O homem que vive na Argentina. O investidor de uma cidade privada nas Honduras. O cofundador da Palantir. O amigo de Trump. O homem por trás de uma sociedade reservada de elites. Tudo isto parece tão estranho que é fácil transformar a história numa caricatura. Mas talvez isso seja um erro.
Porque, por trás das partes mais bizarras, existe uma discussão extremamente séria sobre o futuro.
- Quem deve governar?
- Quem deve controlar a tecnologia?
- Até onde deve ir a inteligência artificial?
- Quem deve controlar os dados?
- Devem existir cidades com regras próprias?
- É possível ter liberdade sem democracia?
- Quanto poder devemos entregar a empresas privadas?
- E o que acontece quando empresas tecnológicas começam a desempenhar funções que tradicionalmente pertenciam aos Estados?
Estas perguntas já não são ficção científica. Estão a acontecer agora.
De Honduras à Argentina: dois laboratórios diferentes
Em Honduras, um grupo de investidores tentou criar um espaço relativamente pequeno onde pudesse experimentar uma nova forma de governação.
Na Argentina, Javier Milei está a tentar aplicar uma transformação libertária num Estado-nação com dezenas de milhões de habitantes.
Peter Thiel está ligado aos dois mundos. Um é uma experiência privada. O outro é uma experiência política nacional.
Se Próspera é uma experiência sobre o que acontece quando criamos uma cidade com muito menos Estado, a Argentina pode ser vista como uma experiência muito maior: o que acontece quando um Estado inteiro tenta reduzir radicalmente o seu próprio peso?
E há ainda uma terceira experiência: Palantir
Enquanto Thiel apoia experiências que procuram limitar o Estado, a sua principal criação empresarial tornou-se uma ferramenta utilizada precisamente por Estados.
O futuro imaginado por Thiel não parece ser simplesmente um mundo sem Estado. Parece ser um mundo em que o Estado tradicional perde poder enquanto determinadas redes privadas, tecnológicas e financeiras ganham poder.
O poder não desaparece. Muda de mãos.
Peter Thiel não parece particularmente interessado em adaptar-se ao mundo que existe.
Parece muito mais interessado em imaginar – e financiar – o mundo que poderá existir a seguir.
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Foto: “Peter Thiel” por Gage Skidmore, CC BY-SA 2.0