Cegonhas-brancas, guarda-rios, abelharucos, alfaiates e gansos-patola podem fazer parte das futuras notas de euro. O Banco Central Europeu está a pedir aos europeus que escolham o novo visual das notas. A votação está aberta até 21 de setembro.

Há objetos que fazem parte do nosso quotidiano de uma forma tão banal que quase deixamos de reparar neles. As notas de euro são um deles.

Passam de mão em mão, entram nas carteiras, nas caixas das lojas e nas caixas multibanco, viajam entre países e estão presentes em milhões de transações todos os dias. Mas também são uma das formas mais visíveis de representar aquilo que uma sociedade considera importante.

E agora temos uma oportunidade rara de ajudar a decidir o que queremos ver quando olhamos para o dinheiro europeu.

O Banco Central Europeu (BCE) está a preparar uma nova série de notas de euro e colocou em votação pública dez propostas de desenho, desenvolvidas a partir de dois temas: “Cultura europeia” e “Rios e aves”. Qualquer pessoa pode participar no inquérito online, que está disponível até às 23h59 de 21 de setembro.

Entre grandes figuras europeias e a biodiversidade

Uma das opções é: “Cultura europeia”. As propostas incluem figuras como Leonardo da Vinci, Marie Curie, Ludwig van Beethoven, Maria Callas, Miguel de Cervantes e Bertha von Suttner, associadas a espaços e atividades culturais.

A outra possibilidade é, para quem gosta de natureza, particularmente interessante: “Rios e aves: resiliência na diversidade”. Aqui há paisagens, rios e algumas das aves que fazem parte do património natural europeu.

E é difícil não imaginar como seria abrir a carteira e encontrar uma cegonha, um guarda-rios ou um ganso-patola no lugar onde hoje vemos os arcos e janelas da atual série.

Que aves estão em cima da mesa?

O BCE definiu seis espécies para acompanhar a progressão de um rio, desde a nascente até ao mar.

Na nota de 5 euros, aparece a trepadeira-dos-muros, junto a uma paisagem de montanha. Nos 10 euros, surge o guarda-rios, associado a uma queda de água. A nota de 20 euros seria dedicada ao abelharuco, representado junto a uma colónia numa margem fluvial. Nos 50 euros, teríamos a cegonha-branca, a sobrevoar um rio sinuoso. Na nota de 100 euros, aparece o alfaiate, sobre a superfície lodosa de um estuário. E nos 200 euros, encontramos o ganso-patola a sobrevoar as ondas do oceano.

Não se trata, portanto, de escolher livremente qualquer animal para colocar nas notas. As espécies já foram selecionadas pelo BCE; o que está agora em votação são os diferentes desenhos que dão vida a estes motivos.

E algumas delas têm uma relação particularmente interessante com Portugal.

Uma cegonha que faz ninho sobre o mar

A cegonha-branca é provavelmente uma das aves mais reconhecíveis da paisagem portuguesa. Estamos habituados a vê-la em ninhos enormes sobre chaminés, árvores, telhados e postes de eletricidade. A espécie adaptou-se extraordinariamente bem à presença humana e, em Portugal, existem inclusive projetos destinados a reduzir a mortalidade causada pelas linhas elétricas.

Mas há um comportamento ainda mais extraordinário. Na Costa Sudoeste, entre São Torpes e Burgau, algumas cegonhas-brancas constroem os seus ninhos nas falésias e nos ilhéus rochosos junto ao Atlântico. A SPEA classifica esta forma de nidificação como um caso único na Europa.

É uma imagem que parece contrariar aquilo que associamos à espécie: uma cegonha normalmente ligada a campos agrícolas, aldeias e construções humanas a escolher uma falésia sobre o oceano como local para criar a sua família. E é precisamente este tipo de ligação entre biodiversidade e território que uma nota de euro poderia levar consigo para milhões de pessoas.

Dos rios portugueses ao oceano europeu

Também o guarda-rios é uma presença familiar junto a muitos dos nossos cursos de água. Pequeno, azul e laranja, aparece frequentemente apenas por breves segundos antes de desaparecer rio abaixo. O abelharuco, com as suas cores intensas, é outro visitante da paisagem portuguesa.

E o ganso-patola leva-nos ainda mais longe. É uma ave marinha extraordinária, capaz de mergulhar no oceano a grande velocidade para capturar peixe. A sua presença na proposta dos 200 euros reforça precisamente a ideia de que os rios não terminam quando chegam ao litoral: existe uma continuidade entre os ecossistemas de água doce, os estuários e o oceano. É também esse o conceito escolhido pelo BCE.

A sequência das notas acompanha simbolicamente o percurso da água: nascente, cascata, vale fluvial, rio, estuário e mar. As aves aparecem associadas a esses diferentes ambientes.

No verso, em vez das aves, surgem edifícios das instituições europeias.

O BCE explica que os rios e as aves foram escolhidos precisamente por não reconhecerem fronteiras e por simbolizarem liberdade, unidade e a ligação dos europeus à natureza.

E se o dinheiro também servisse para nos lembrar da natureza?

A próxima série poderá continuar a contar uma história essencialmente cultural ou poderá contar também uma história sobre os ecossistemas que partilhamos.

É claro que uma cegonha impressa numa nota não vai proteger as cegonhas. Uma nota com um rio não impede que os rios sejam contaminados. E imprimir um ganso-patola nos 200 euros não resolve a crise da biodiversidade.

Mas pode tornar a natureza mais visível. Se durante anos milhões de pessoas transportarem no bolso uma imagem de um guarda-rios, talvez algumas delas acabem por perguntar que ave é aquela. Se uma criança receber uma nota de 20 euros e vir um abelharuco, talvez queira descobrir onde vive. Se alguém reparar que a cegonha dos 50 euros está associada a um rio e começar a olhar de outra forma para as paisagens que atravessa, já existe uma pequena mudança. A representação não substitui a conservação. Mas pode contribuir para a literacia sobre biodiversidade.

É precisamente esse argumento que tem sido defendido por organizações de conservação da natureza. A Rewilding Portugal, por exemplo, considera que colocar aves nas notas poderia aproximar milhões de pessoas da biodiversidade europeia e dar maior visibilidade à necessidade de proteger habitats e restaurar ecossistemas.

Não é só uma questão de escolher a nota mais bonita

O processo de escolha é também interessante porque representa uma tentativa pouco habitual de envolver os cidadãos numa decisão sobre um objeto que pertence, de certa forma, a todos. O BCE recebeu mais de 1200 candidaturas de designers gráficos de toda a União Europeia. Desses candidatos, 25 foram convidados a desenvolver propostas para um ou ambos os temas. Um júri independente de 21 especialistas, incluindo profissionais das áreas do design gráfico, comunicação, neurociência e história, selecionou depois os dez conjuntos que chegaram à fase final.

Agora é a vez do público. No inquérito, podemos avaliar cada conjunto de desenhos e dizer se gostamos do seu aspeto, se as diferentes notas formam um conjunto coerente, se transmitem uma identidade europeia e se nos identificamos com as ilustrações.

Qualquer pessoa pode participar, independentemente da idade, nacionalidade ou país de residência, desde que tenha acesso à Internet. O questionário está disponível nas 24 línguas oficiais da União Europeia.

Quando vamos ter as novas notas na carteira?

Ainda vai demorar. O Conselho do BCE deverá escolher a proposta vencedora até ao final de 2026, tendo em conta os resultados da consulta pública, uma sondagem representativa realizada por uma empresa independente, a avaliação técnica e o trabalho do júri. Depois será necessário desenvolver tecnicamente as notas, testar os novos elementos de segurança e iniciar a produção.

O BCE prevê que passem vários anos entre a decisão sobre o desenho e a entrada das novas notas em circulação. As notas que usamos atualmente continuarão válidas. A nova série será, além disso, concebida para ser mais segura, acessível e duradoura e para reduzir o impacto ambiental da sua produção.

Então, qual devemos escolher?

Essa parte fica para cada um. Talvez prefira ver Leonardo da Vinci, Marie Curie ou Beethoven nas nossas carteiras. Talvez ache que uma moeda comum deve representar sobretudo aquilo que temos em comum enquanto europeus: a nossa cultura, ciência e história.

Ou talvez prefira olhar para uma nota e encontrar uma paisagem, um rio e uma ave. Se escolher “Rios e aves”, pode ser que daqui a alguns anos uma cegonha, um guarda-rios ou um ganso-patola esteja mesmo a viver na nossa carteira. E talvez, com aves e rios impressos naquele que é um dos objetos que mais simbolicamente representa a nossa economia, comecemos também a dar um pouco mais de valor à natureza que nos rodeia.

Quer votar?

A consulta pública do Banco Central Europeu está aberta até 21 de setembro de 2026.

👉 Votar nas futuras notas de euro – inquérito oficial do BCE

Também pode consultar as dez propostas e conhecer os desenhos completos no site do BCE:

Ver as dez propostas de desenho

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Última atualização: 14 Setembro 2026