A Roménia alberga mais de 500 mil hectares de florestas primárias, consideradas algumas das últimas grandes florestas antigas da Europa. No entanto, estes ecossistemas únicos enfrentam uma pressão crescente devido à exploração madeireira industrial.
No documentário Wild East, a realizadora canadiana Maia Wikler, National Geographic Explorer e doutoranda em Ecologia Política, acompanha o ativista ambiental Gabi Paun na investigação à destruição destas florestas e às alegadas ligações da IKEA ao abate de madeira proveniente de áreas de elevado valor ecológico.
Nesta entrevista ao UniPlanet, Maia Wikler fala sobre os riscos enfrentados durante as filmagens, a importância das florestas antigas, o papel do documentário de investigação e a necessidade de repensarmos a relação entre consumo e natureza.
UniPlanet (UP): O que a levou a interessar-se por esta história e pelas florestas da Roménia?
Tenho uma ligação pessoal a esta história enquanto consumidora de produtos IKEA. A marca tem uma boa reputação e os seus produtos são acessíveis. No entanto, desconhecia a realidade por detrás da IKEA até saber da destruição que estava a causar nas terras de origem de uma amiga minha.
Conheci a produtora Audrey Popa durante o meu doutoramento. Quando me falou da crise ambiental que se estava a desenrolar na Roménia, senti que tínhamos a responsabilidade de fazer este filme juntas.
Enquanto realizadora, o meu objetivo é que Wild East consiga provocar mudanças concretas. Estamos a contar uma história crítica que nunca tinha sido contada e que tem potencial para gerar um impacto real junto do público em todo o mundo.
UP: A Roménia é frequentemente descrita como o país que alberga cerca de 70% das florestas primárias remanescentes da Europa. Porque são estas florestas tão importantes do ponto de vista ecológico?
Com mais de 500 mil hectares – mais do que qualquer outro país da União Europeia – e vastas áreas contínuas que se estendem por dezenas de quilómetros quadrados, as florestas da Roménia constituem um fenómeno único na Europa atual, onde menos de 4% da área florestal permanece verdadeiramente intacta.
A importância ecológica destas florestas é enorme. As florestas dos Cárpatos são um dos últimos grandes refúgios de biodiversidade da Europa, albergando lobos, ursos, linces, bisontes, gatos-bravos e inúmeras espécies de aves que praticamente desapareceram do resto do continente.
Do ponto de vista climático, as florestas antigas estão entre os ecossistemas com maior capacidade de armazenamento de carbono da Europa, e a Roménia concentra uma parte desproporcionalmente elevada destas florestas. A sua destruição representaria um sério revés para as metas climáticas da União Europeia.
Apesar da existência de proteção legal, a sua aplicação está longe de ser eficaz. Cerca de 72% das perturbações registadas em florestas antigas ocorrem dentro de áreas protegidas e, entre 2021 e 2024, estima-se que tenham sido extraídos cerca de 4,7 milhões de metros cúbicos de madeira de zonas de floresta primária – o equivalente a encher duas vezes a Grande Pirâmide de Gizé.
A fragmentação agrava ainda mais o problema. Pequenos fragmentos de floresta rodeados por cortes rasos perdem grande parte do seu valor ecológico. As grandes áreas contínuas de floresta antiga são insubstituíveis.
Ecologicamente, estas florestas desenvolvem-se ao longo de séculos até se tornarem ecossistemas extremamente complexos, com árvores mortas em pé, troncos caídos, extensas redes de raízes e clareiras naturais que as plantações florestais nunca conseguem reproduzir. Esta diversidade estrutural cria micro-habitats para milhares de espécies – fungos, insetos, líquenes, aves que nidificam em cavidades e pequenos mamíferos – que dependem exclusivamente destas condições.
Nestas florestas maduras, a madeira morta representa uma proporção muito superior do ecossistema do que acontece nas florestas exploradas. Na Europa, cerca de 20 a 25% da biodiversidade florestal depende da madeira morta, incluindo numerosas espécies ameaçadas de escaravelhos e fungos. As florestas virgens da Roménia são dos poucos locais da União Europeia onde este recurso ainda existe em quantidades ecologicamente significativas.
Os sistemas radiculares intactos, os solos não perturbados e a cobertura contínua das copas regulam o ciclo da água, reduzem a erosão e filtram os escoamentos superficiais. Nos Cárpatos, estas florestas alimentam importantes bacias hidrográficas, pelo que a sua degradação aumenta diretamente o risco de cheias a jusante.
Além disso, as florestas antigas criam os seus próprios microclimas: mais frescos, mais húmidos e mais estáveis, protegendo as áreas envolventes dos extremos de temperatura e permitindo a sobrevivência de espécies incapazes de se adaptar às rápidas alterações climáticas.

UP: Durante as filmagens documentaram operações de exploração florestal e acompanharam investigadores que trabalhavam num contexto de elevado risco. Houve momentos em que sentiram que a vossa segurança estava em perigo?
Sempre que entrávamos na floresta para filmar sentíamos que estávamos em perigo. Era um ambiente de elevado risco, onde já tinham ocorrido ataques violentos contra jornalistas e ativistas.
Em todas as deslocações tivemos encontros com madeireiros. Um dos momentos mais tensos aconteceu quando estes se articularam com a polícia para tentar impedir a nossa equipa de utilizar a única estrada de acesso à floresta.
UP: Wild East acompanha o ativista ambiental Gabi Paun e os seus esforços para denunciar a exploração madeireira em algumas das últimas florestas antigas da Europa. O que a levou a construir o documentário em torno da história pessoal de Gabi?
O nosso protagonista, o ativista Gabi Paun, cresceu durante o regime comunista na Roménia, uma experiência que moldou a sua determinação em nunca fechar os olhos ao que considera injusto.
Através da organização Agent Green, conduz uma investigação rigorosa – e cada vez mais perigosa – sobre a exploração de algumas das últimas florestas primárias da Europa, reunindo provas sobre o alegado papel da IKEA na sua destruição.
Ao longo do documentário acompanhamos Gabi e a sua equipa em diversas investigações, desde operações disfarçadas nas florestas até processos judiciais e ações públicas.
Depois de várias tentativas de atentado contra a sua vida, Gabi foi obrigado a abandonar a sua casa e a continuar o seu trabalho escondido, mantendo-se inabalável no compromisso com a justiça ambiental.
Wild East coloca o risco pessoal e a resiliência de Gabi no centro de uma história que tem implicações ecológicas muito mais vastas.
UP: A IKEA afirma que investigações independentes não encontraram qualquer irregularidade na sua cadeia de abastecimento e que as alegações não correspondem à realidade. Como responde a essa posição e de que forma essa questão é abordada no documentário?
O documentário mostra as provas recolhidas no terreno que contestam essas afirmações.
UP: Sendo investigadora em Ecologia Política, de que forma a sua formação académica influencia a forma como faz documentários?
O meu doutoramento centra-se na chamada síndrome da referência móvel (shifting baseline syndrome), um fenómeno em que as pessoas acabam por normalizar ambientes degradados.
Essa normalização reduz a capacidade de reconhecer os impactos ambientais negativos e de agir quando um ecossistema já não funciona como deveria.
Estudo especificamente a desflorestação na Colúmbia Britânica.
As florestas antigas são verdadeiros arquivos vivos: mostram-nos como os ecossistemas eram e como poderiam continuar a ser.
O meu trabalho procura contar a história destes lugares através das memórias de pessoas que os defenderam durante muitos anos ou que mantêm diferentes tipos de relação com eles.
Procuro compreender de que forma podemos contrariar esta síndrome e responder ao que muitos investigadores designam por “extinção da experiência”. Como restam muito poucas florestas antigas, muitas pessoas nunca tiveram contacto direto com estes ecossistemas. Isso torna muito mais fácil para as empresas convencerem o público de que uma plantação de árvores é uma floresta, quando claramente não o é.
A minha formação académica permite-me fazer investigação com rigor científico e, ao mesmo tempo, manter uma forte ligação ao terreno e às comunidades, algo que distingue o meu trabalho do de muitos realizadores tradicionais.
Vejo o cinema documental como um veículo de transmissão de conhecimento e como uma ferramenta para dar às pessoas informação e capacidade de agir.
UP: Muitas pessoas associam a sustentabilidade a marcas que promovem produtos ambientalmente responsáveis. Fazer este documentário mudou a forma como vê as alegações de sustentabilidade das empresas?
Sim, absolutamente.
É fundamental questionarmos a conveniência e os nossos padrões de consumo.
Wild East procura chamar a atenção para as consequências ambientais do capitalismo, tanto à escala global como local.
UP: Que papel acredita que o documentário de investigação pode desempenhar na proteção do ambiente? E o que lhe dá esperança quando trabalha sobre temas relacionados com destruição ambiental e interesses económicos poderosos?
O documentário permite levantar o véu sobre realidades desconhecidas e dá ao público o poder do conhecimento, alimentando a vontade de agir.
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UP: Para além da Roménia, considera que esta história faz parte de uma conversa global sobre florestas, biodiversidade e consumo?
Num contexto de agravamento da crise climática, as florestas antigas constituem uma das últimas grandes linhas de defesa contra o aumento das emissões de carbono e o rápido declínio da biodiversidade.
Uma vez destruídas, são insubstituíveis.
No entanto, estes ecossistemas extraordinariamente ricos estão hoje ameaçados em todo o mundo.
As marcas deixadas pelos cortes rasos e pelas plantações florestais em monocultura são visíveis tanto no Norte como no Sul Global.
A destruição das florestas tropicais, como a Amazónia, tem recebido enorme atenção internacional. Contudo, a exploração florestal industrial no Norte Global é atualmente o maior fator responsável pela perda de coberto arbóreo a nível mundial.
A IKEA é um dos maiores consumidores de madeira do planeta.
Muitas pessoas acreditam, devido ao eficaz greenwashing da empresa, que é possível comprar mobiliário barato sem consequências ambientais.
Mas a conveniência tem um custo.
Para manter preços baixos, a IKEA precisa de garantir madeira ao menor preço possível e, num modelo de produção em massa, torna-se impossível assegurar que toda essa madeira tenha origem verdadeiramente responsável.
A empresa apoia-se em certificações como a FSC (Forest Stewardship Council) para afirmar que utiliza madeira proveniente de gestão sustentável. No entanto, visitei locais certificados pela FSC que pareciam autênticas paisagens lunares.
Estamos a falar da destruição de ecossistemas essenciais.
Florestas antigas extremamente biodiversas estão a ser transformadas em mobiliário vendido em embalagens planas e a preços muito reduzidos.
Esses preços baixos também não incentivam a reutilização, a reparação ou a recuperação do mobiliário.
O conceito de fast furniture ainda não faz parte do debate público, mas espero que Wild East ajude a colocá-lo no centro dessa discussão.
UP: Se os espectadores levarem apenas uma mensagem deste documentário, qual gostaria que fosse? O filme estabelece uma ligação entre a procura global de mobiliário barato e a destruição das florestas antigas. O que espera que o público compreenda sobre a relação entre consumo e impactos ambientais?
A conveniência tem um custo.
Num livro romeno publicado em 1975 existe uma passagem que diz:
“Existe uma rutura entre o ser humano e a natureza que se está a aprofundar a uma velocidade alarmante. Para restaurar esse equilíbrio, o ser humano terá de desenvolver uma nova atitude perante a natureza, baseada na harmonia e não na conquista.”
Este documentário procura precisamente refletir sobre essa questão fundamental: como podem os romenos – e todos nós – reconciliar esta relação essencial com a natureza?
No final do filme, espero que o público reflita sobre a forma como uma grande empresa multinacional pode envolver todos nós, enquanto consumidores, na destruição de um lugar distante, invisível e frequentemente esquecido.
UP: Em que projetos está atualmente a trabalhar? Há outras histórias ambientais que considera urgentes e que merecem maior atenção?
Estou atualmente a realizar uma longa-metragem documental sobre os impactos ambientais e na saúde pública do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo.
Ao mesmo tempo, estou a concluir a minha tese de doutoramento, que será publicada em livro. Nela investigo o papel das florestas não apenas do ponto de vista ecológico, mas também como lugares de memória e testemunhos do tempo, analisando igualmente a forma como interesses empresariais e políticos influenciam a maneira como a sociedade se relaciona com as florestas, as perceciona e delas se recorda.
Imagens: Wild East Documentary

